É curioso notar como o problema da méthexis no Parmênides de Platão antevê o erro categorial que, dois milênios depois, viria a assombrar a modernidade filosófica e científica, a exemplo do problema da consciência e dos diversos pseudoproblemas gerados pelo materialismo e pelo mecanicismo.
No diálogo, o velho filósofo eleata encurrala o "jovem Sócrates" ao atacar a sua incipiente Teoria das Formas. Embora se utilize de um brilhante truque erístico, Parmênides expõe ali uma fragilidade real na vaga noção de méthexis (participação), forçando o amadurecimento ontológico da teoria: "οὐκοῦν ἤτοι ὅλου τοῦ εἴδους ἢ μέρους ἕκαστον τὸ μεταλαμβάνον μεταλαμβάνει;" (Será, portanto, de toda a Forma ou de uma parte dela que cada participante participa?)
A armadilha consiste em submeter o mundo inteligível (inextenso) à esquemática e às leis do mundo físico (extenso). Sócrates tenta escapar brilhantemente com a metáfora da luz, dizendo que a Forma é como o dia (ἡμέρα), que ilumina muitos lugares ao mesmo tempo sem se quebrar. Mas Parmênides, assumindo uma postura sofística justamente para testar a robustez da teoria, ignora a imaterialidade da luz e "espacializa" a Ideia, substituindo o dia pela imagem material de um véu ou pano de vela (ἱστίον). A partir dessa imagem grosseira, Parmênides "prova" que a Forma teria de ser "fatiada" e que as coisas do mundo receberiam apenas uma "migalha" divisível dela.
A mesma confusão, já presente de forma farta nos famosos paradoxos zenonianos, encontra-se profundamente enraizada na forma mentis moderna. Problemas como o célebre hard problem of consciousness nascem justamente da seguinte pretensão: a busca por reduzir a mente a um epifenômeno cerebral, com todas as aporias que daí derivam. No dilema imposto ao jovem Sócrates, Parmênides condena qualquer uma das soluções apresentadas para a presença da Forma na matéria: a sua entrada "por inteiro" ou "fatiada" em partes. De maneira semelhante, quando o neurocientista tenta encontrar a "Alma" ou a "Mente" no cérebro, ele esbarra no mesmo obstáculo: a consciência está inteira em cada neurônio? Não. Ela está dividida em pedaços anatômicos nos lobos cerebrais? Também não, pois assim seria retalhada e perderia a sua unidade. Diante desse impasse, o cientificista moderno age como um sofista rasteiro e decreta: "Se a alma não entra na matéria nem em partes nem inteira, logo, a alma não existe." Ele desiste da investigação simplesmente porque a sua régua material (naturalmente) falha ao tentar aferir o que é, em essência, uma imaterialidade intensiva.
O mesmo equívoco manifesta-se em diversos paradoxos mereológicos, como o Navio de Teseu, levado a sério até hoje por pensadores que, cegos à solução hilomórfica, focam apenas na causa material e ignoram a causa formal, donde se funda a identidade do navio. Ocorre também no paradoxo do Criador: quando o neoateísta pergunta "Se tudo tem uma causa, quem criou Deus?", ele projeta a lei da sucessão do espaço-tempo físico sobre o Autor do próprio tempo, exigindo uma "anterioridade cronológica" para o que é, por definição, Eterno. Há sistemas filosóficos inteiros erguidos sobre esse vício de origem. À semelhança da personagem platônica, muitos filósofos e cientistas modernos incorrem nesse erro estrutural, que condena fatalmente qualquer possibilidade de compreensão do real.