Um movimento político real tem como fundamento uma discussão metapolítica prévia. Antes de constituir-se como força efetiva na disputa pelo poder, dedica-se durante anos à elaboração de uma visão de mundo, ao debate filosófico, à definição de valores, princípios e objetivos, bem como à reflexão acerca daquilo que deve ser conservado e daquilo que precisa ser transformado dentro dos limites que a própria realidade política permite.
E, tão somente, após a consolidação desse arcabouço intelectual é que se forma verdadeiramente um movimento político. Sua consolidação concretiza-se quando uma personalidade política passa a encarnar simbolicamente esse conjunto de ideias, valores e aspirações, fenômeno que ocorreu após as manifestações iniciadas em 2013 na figura de Bolsonaro. O líder não cria o movimento; antes, torna-se sua expressão visível e sua representação prática na esfera pública. Dessa forma, pode-se afirmar que não existe movimento político consistente sem uma discussão intelectual que o preceda e lhe forneça sustentação doutrinária. A ação política não surge do vazio, de outro modo, ela é consequência de uma construção anterior que define sua identidade, seus fins e seus critérios de atuação.
Por essa razão, um agrupamento cuja coesão se baseia exclusivamente na figura de um personagem político, sem uma estrutura de ideias capaz de ancorá-lo, tende a ser amorfo e vazio. Carece de identidade própria, dado que sua unidade não decorre de princípios compartilhados, mas da adesão circunstancial a uma pessoa. Nesses casos, o movimento não possui uma definição clara de si mesmo, tornando-se dependente da permanência de seu líder e incapaz de sustentar-se como força política autônoma ao longo do tempo. Por último, As ideias não desaparecem completamente após a escolha do candidato. Elas permanecem como critério de legitimidade. Enquanto a estratégia busca conquistar ou conservar poder, os princípios continuam funcionando como limite e referência. Se o político se afastar das ideias que o "pariu", deve ser substituído imediatamente.
É justamente por isso Olavo insistia tanto na formação cultural e intelectual anterior à disputa eleitoral. A preocupação dele era que a política não se reduzisse à escolha de uma pessoa, pelo contrário, permanecesse vinculada a uma estrutura de ideias capaz de sobreviver ao próprio político que, em determinado momento, a representa.