DO ANÚNCIO CORPORATIVO À PISTA DE DANÇA: COMO O SMILEY VIROU ÍCONE DA ACID HOUSE
O popular “sorriso amarelo” que hoje remete ao universo rave nasceu longe das pistas de dança. Em 1963, o designer americano Harvey Ross Ball foi contratado pela seguradora State Mutual Life Assurance para criar um símbolo que animasse os funcionários.
Em dez minutos ele desenhou um círculo amarelo com olhos ovais e um sorriso imperfeito e recebeu US$ 45 pelo trabalho. A empresa distribuiu bottons com o desenho para melhorar o ambiente de trabalho, e seu sucesso foi tanto que milhões de unidades foram vendidas no início da década de 1970. Ball jamais registrou a marca; para ele, a alegria que o símbolo transmitia valia mais do que qualquer patente.
A segunda vida do smiley começou em Londres. Depois de uma temporada em Ibiza em 1987, o DJ Danny Rampling resolveu recriar o espírito dos clubes espanhóis em seu clube Shoom. Inspirado pelas vibrações baleares e pela euforia coletiva, ele e sua esposa Jenni encheram o espaço com folhas perfumadas, lasers e logotipos de smiley; o desenho estampava flyers, camisetas e decorava as paredes.
Rampling contou que pegou a ideia de um designer conhecido como Barnzley, que usava roupas com o sorriso, porque o símbolo refletia exatamente o que buscava em sua festa: “positividade, amor, união, diversão e felicidade”. Em poucos meses, o smiley tornou‑se o estandarte da acid house britânica e seria onipresente no chamado Segundo Verão do Amor, em 1988 .
Mais do que decoração, o uso do smiley tinha significado. No auge do movimento, o desenho aparecia em convites, discos e até em pílulas de ecstasy e foi adotado de forma espontânea pela comunidade rave como uma espécie de taquigrafia visual para o sentimento de euforia coletiva. O site da Smiley Company, detentora da marca, lembra que essa adoção foi orgânica e transformou o símbolo em algo que transcendeu suas origens comerciais.
Hoje, passadas três décadas do Summer of Love, a empresa afirma que o smiley tem 97 % de reconhecimento mundial como símbolo de positividade. Essa trajetória — de campanha de recursos humanos a ícone de contracultura — ilustra como a cultura clubber soube apropriar‑se de um logotipo corporativo para traduzir um ideal de liberdade e união.