Quem disse que cobra não tem perna?
Se pedirem para você desenhar uma cobra, o resultado provavelmente será um tubo longo e sem membros.
A ausência de patas é a característica mais definidora desses animais. Porém, se você virar uma Jiboia ou uma Píton de barriga para cima e olhar atentamente perto da cauda (na região da cloaca), terá uma surpresa pré-histórica: duas pequenas garras pontiagudas, uma de cada lado. Sim, tecnicamente, essas serpentes ainda têm pernas traseiras.
Essas estruturas são chamadas de esporões pélvicos. Elas não são anomalias ou deformidades, mas sim "relíquias evolutivas".
As serpentes modernas evoluíram a partir de ancestrais lagartos que viviam no subsolo ou na água há mais de 100 milhões de anos. Com o tempo, o corpo alongado tornou-se vantajoso e as pernas, desnecessárias, foram regredindo.
Nas serpentes mais "modernas" (como as Jararacas e Corais), as pernas desapareceram completamente.
Mas nas serpentes "primitivas" (como as da família Boidae e Pythonidae), a evolução esqueceu de apagar o rascunho final.
O mais fascinante é o que existe por dentro. Se fizéssemos um raio-X dessa região, veríamos que o esporão não é apenas uma escama dura. Ele está conectado a uma estrutura óssea interna flutuante que inclui vestígios de uma pélvis (bacia) e de um fêmur (o osso da coxa).
É um esqueleto de perna em miniatura, escondido sob a pele e músculos, que nunca se desenvolveu completamente.
Mas a natureza detesta desperdício. Se esses tocos de pernas ainda estão lá, é porque servem para alguma coisa.
Embora inúteis para caminhar, os esporões ganharam uma nova função: a "arte da sedução".
Nos machos, essas garras são maiores e móveis.
Durante o acasalamento, o macho utiliza seus esporões para fazer cócegas, arranhar e estimular a região cloacal da fêmea. Esse estímulo tátil é crucial para convencê-la a aceitar a cópula.
Em algumas espécies de combate, os machos também usam essas esporas para arranhar rivais em disputas territoriais.
Portanto, quando você olha para uma Jiboia, está olhando para um museu vivo. Aquele pequeno "espinho" perto do rabo é a assinatura de que, num passado remoto, os avós daquela serpente caminhavam sobre a Terra.
Referencia Bibliográfica
Gillingham, J. C., & Chambers, J. A. (1982). Courtship and pelvic spur use in the Burmese python, Python molurus bivittatus. Copeia, 1982(1), 193-196.