Artigo irretocável do Dr.
@RodrigoBornhold
"A Câmara de Vereadores de Joinville (CVJ) decidiu pagar mais um mico nessa nova legislatura.
Impulsionados por manifestações histéricas nas redes sociais e pelo comportamento primitivo de algumas das pessoas da plateia, resolveram agora sugerir limites morais à liberdade de expressão artística, metendo o bedelho nos padrões a serem seguidos pelo Festival de Dança de Joinville. Fizeram uma moção de repúdio à Noite de Gala do Festival.
Os vereadores se esquecem que foram eleitos para defender a liberdade, não para oprimi-la. Que não receberam um mandato para fazer uma guerra santa. E que a liberdade de expressão deve ser preservada justamente ali onde ela incomoda. Isso vale ainda mais quando se trata da liberdade de expressão artística, como a dança. Pois o que define a arte é justamente a busca da vanguarda. E aquilo que é novo muitas vezes causa repulsa.
O juízo estético que cada um fará, suas preferências acerca da qualidade de uma apresentação, o gostar ou não gostar de algo, suas críticas, fazem parte do jogo livre e democrático. Mas ir além disso, tentando enquadrar e censurar moralmente aquilo que um coreógrafo renomado propõe, ameaça jogar nossa civilização numa era medieval, que poderá levar séculos para recuperar sua herança iluminista.
Já seria bizarro um vereador fazer referências depreciativas a um espetáculo que promove a cultura e a arte em Joinville. Mas, como dito, isso ainda se situaria dentro de um comportamento possível a um debate parlamentar. Ele ou ela poderiam sugerir outras apresentações, avaliar (sabe-se lá com quais critérios) a qualidade do espetáculo. Mas fazer uma moção de repúdio, liderados por aqueles que se julgam os únicos capazes de traduzir o sentimento cristão em Joinville, foge do admissível e leva a Câmara de Vereadores a um patamar rebaixado.
Nessa votação, tinha de tudo: pastor mencionado em B.O. por práticas indecorosas com os fieis, pedindo para os cristãos ungirem o Centreventos; outro, aparentemente ex-artista, fazendo um comentário acertado sobre o papel subversivo da arte. É pena que ele persiga professores e cineastas cujas posições ideológicas são distintas da sua.
Normalmente, aliás, são mulheres as vítimas. Não surpreende o comentário infeliz da sequência, pedindo classificação indicativa para o espetáculo. Ora, como gostam de dizer os liberais, cabe aos pais decidirem se permitirão ou não a seus filhos assistir ao espetáculo.
É por essas e outras que não me canso de dizer que precisamos fortalecer a democracia participativa em Joinville, empoderando as organizações não governamentais e os vários Conselhos e Conferências de caráter obrigatório, mas normalmente esvaziados pela inércia, omissão ou boicote do Poder Executivo. A CVJ, afinal, é uma das caixas de ressonância do pensamento dos joinvilenses, mas não é a única. Isso pra não falar das possíveis mexidas no Sistema de Desenvolvimento pela Cultura (Simdec), ameaçado depois de quase vinte anos promovendo e fomentando a livre expressão artística de diversos grupos sociais.
Nessa hora, cabe a todos nós, e em especial aos parlamentares, defenderem e lutarem por aquilo que verdadeiramente caracteriza a civilização ocidental: a liberdade. Ela não pode ser tolerada apenas para aqueles que pensam como nós. A interpretação fundamentalista e rasteira da Bíblia, utilizada por muitos, não se situa acima da Constituição, que acolhe também outras religiões e quem não professa nenhuma. Aliás, se formos olhar bem para a Bíblia, os Salmos e o Cântico dos Cânticos não tratam de danças, algumas delas polêmicas?
Só falta agora a CVJ expressar repúdio a “Simpathy for the Devil”, dos Rolling Stones. A propósito, essa música foi inspirada em “O Mestre e a Margarida”, do autor russo Mikhail Bulgakov. Ele lamentava a censura na União Soviética, o bicho-papão comunista tão condenado pela maioria dos vereadores, que se dizem liberais."
Rodrigo Bornholdt