1) Eu não sou especializado no pensamento taoísta, apesar de ter alguma leitura sobre. Pra isso, me basearei em uma delas e que parece ser uma das melhores fontes que temos acessível no Ocidente, que é o trabalho de Eva Wong, uma praticante de feng shui, pesquisadora independente do taoísmo e praticante das artes alquímicas taoistas, em especial o seu "Taoism: An Essential Guide" (2011).
No capítulo sobre o Tao-te ching, Eva Wong define o Tao como fonte da vida de todas as coisas, “sem nome”, invisível, inapreensível pelos modos normais de percepção, ilimitado, inexaurível, e como a realidade permanente subjacente às transformações e mudanças. Ela também distingue concepções diferentes dentro do taoísmo clássico: no Tao-te ching, o Tao ainda aparece como uma força benevolente, ou melhor dizendo (acrescentando aqui minha perspectiva): como um princípio de axiarquia; já em Zhuangzi e Liezi, segundo ela, o Tao passa a ser entendido de modo mais neutro: continua sendo a realidade subjacente, a fonte sem nome e sem forma de toda existência, mas não como algo que “controla” os eventos ou age providencialmente.
Até aqui, principalmente na primeira concepção, há de fato uma grande proximidade com a concepção vedāntina e com certos germes dessa ideia já presentes no período védico, por exemplo na formulação henoteísta, no sentido mülleriano, do ekaṃ sat, o “Ser-Uno” ou “Real-Uno” do Ṛgveda, segundo o qual a realidade última é una, embora nomeada e abordada sob múltiplas formas divinas. Importante também notar a semelhança com o conceito de Ṛta no período védico: a ordem, regularidade e harmonia cósmica que sustenta o mundo, algo que também encontra um paralelo evidente na ênfase taoísta na ordem espontânea e impessoal do Tao.
Mas existe uma diferença, até onde eu enxergo (posso estar errado sobre isso), que tem a ver com o motivo que eu prefiro classificar a primeira concepção taoísta apenas como um tipo de princípio de axiarquia (isto é, um princípio pelo qual a realidade se ordena a partir do valor, da bondade ou da excelência intrínseca das coisas, como se o próprio bem tivesse força explicativa na estrutura do real - a concepção hindu também é isso, mas há um plus): o Tao não é sujeito (seja entendido como uma divindade ou como um espírito ao modo das concepções xamânicas mais antigas na China), mas uma força/princípio impessoal e inominável por trás do funcionamento do universo.
Aqui há uma diferença, a meu ver, em relação ao Brahman no Vedānta: Brahman é fundamentalmente sujeito, ātman, como indicam fórmulas upaniṣádicas como ayam ātmā brahma, “este ātman é Brahman” (Māṇḍūkya Upaniṣad 2), ahaṃ brahmāsmi, “eu sou Brahman” (Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad 1.4.10), e prajñānaṃ brahma, “consciência/conhecimento é Brahman” (Aitareya Upaniṣad 3.3). Por exemplo, a Taittirīya Upaniṣad define explicitamente a svarūpa-lakṣaṇa de Brahman, isto é, sua definição essencial, ainda que apreendida de forma aproximativa pela linguagem, como satyaṃ jñānam anantaṃ brahma, “Brahman é realidade/ser, conhecimento-consciência e infinitude” (Taittirīya Upaniṣad 2.1.1). O fato de Brahman ser cit-svarūpa ou jñāna-svarūpa indica que ele é da natureza da pura consciência, como distinto totalmente de uma mera insenciência, jaḍatā ou acit.
Esse é um ponto importante que tem a ver principalmente com a forma pela qual o yajña védico foi internalizado na concepção sapiencial das Upaniṣads, de modo que o senso de eu-idade mais próximo e imediato, o si-mesmo, ātman, muitas vezes visualizado como uma chama no coração, hṛdaya, daharākāśa ou antarjyotis, passa a presentificar a totalidade da divindade e o próprio princípio do ser, Brahman (já falei sobre isso aqui->
x.com/i/status/2049236587511…). Há aqui, claro, a questão do debate entre dualismo e não-dualismo, dvaita e advaita, bem como outras propostas intermediárias; mas, quer se conceba Brahman como ( ).....