A armadilha de Trump a si mesmo
Por
@ricardo_nuno
🇨🇳🇺🇸 Trump viajou a Pequim na semana que terminou, tal como estava previsto após o breve encontro entre os presidentes chinês e norte-americano à margem da cimeira da APEC, na Coreia do Sul, em novembro. A visita de dois dias pode ser considerada histórica, pois marca uma nova e muito importante fase das relações internacionais e das duas grandes potências económicas mundiais, que certamente reconfigurará o tabuleiro geopolítico.
Trump teve a coragem de voltar à China, nove anos depois da última vista de um presidente norte-americano àquele país, por ele mesmo, logo no início do seu primeiro mandato, em 2017. Infelizmente para Trump, a sua viagem decorreu num cenário de grande desvantagem negocial, muito por culpa própria, após o fiasco das ameaças da imposição de tarifas aduaneiras adicionais à China e do descalabro militar norte-americano no Irão e consequente caos nos mercados da energia e nas rotas de comércio globais.
O momento é importante, porque na administração norte-americana há um crescente grupo interessado em admitir a superioridade e incontornabilidade da China no comércio internacional, e usá-la em seu proveito. São cada vez mais as vozes, que querem empresas chinesas a fabricar nos EUA, e a garantirem empregos no país.
Do ponto de vista formal a reunião foi bem sucedida. Como anfitrião, Xi optou por um tom reconciliatório, apresentando o novo conceito de “estabilidade estratégica construtiva e garantindo que Pequim quer continuar a trabalhar pelo “grande rejuvenescimento da nação chinesa” conjuntamente com a ideia de “Make America Great Again” de Trump. No entanto, os resultados do encontro mostram-nos que este se pautou pela desconfiança mútua e a intransigência dos interesses de cada parte.
As terras raras eram o principal tema em cima da mesa, pois Washington necessita garantir acesso aos minerais considerados indispensáveis para as suas cadeias de abastecimento, tanto para a sua indústria de microchips, como para os veículos elétricos, como para a defesa. A China representa atualmente 90% da capacidade global de refinação e transformação de terras raras e mais de 60% da extração destes minerais. Trump saiu de mãos a abanar, sem ter conseguido um acordo abrangente ou garantias relativamente ao fornecimento dos minerais essenciais para a sua indústria.
A reentrada da Nvidia no mercado chinês, era outro objetivo norte-americano, que não foi conseguido. Após um folhetim que se arrasta desde 2022, os EUA conseguiram perder o maior mercado da sua maior empresa de semicondutores (12 mil milhões de dólares anuais), devido à sua arrogante política de sanções. Agora a China produz os seus próprios chips, e dá-se ao luxo de prescindir da tecnologia americana. O CEO, Jensen Huang, que viajou na comitiva de Trump, voltou aos EUA sem nada nas mãos.
Outro tema que se previa central, era o da atual situação excecional do Estreito de Ormuz, para o qual Trump tinha dito que contava com a ajuda de Pequim. Após a visita, disse mesmo, no avião, que a China estava em sintonia com ele, mas foi prontamente desmentido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, que reiterou na sexta-feira que a guerra lançada por Trump “não deveria sequer ter acontecido”, em clara acusação da responsabilidade dos EUA naquele evento.
Mas talvez o sinal mais importante desta cimeira tenha sido a clara advertência de Pequim relativamente à questão de Taiwan. Xi fez referência à necessidade de evitar a “Armadilha de Tucídides”. Com isto, o mandatário chinês fez referência direta à possibilidade de uma guerra entre as duas potências. É a primeira vez que Xi fala nestes termos, ainda que de forma muito velada e diplomática.
A Armadilha de Tucídides refere-se à guerra entre Atenas e Esparta – entre a potência decadente e a ascendente, que entram em conflito ante a intransigência da primeira em dividir o poder com a segunda. Em “A Caminho da Guerra. Os Estados Unidos e a China conseguirão escapar da Armadilha de Tucídides?”, Allison Graham analisa este padrão ao longo da história, em que em 16 casos de mudança de paradigma entre duas potências, somente quatro não resultaram em guerra.
Os EUA não reconhecem potências iguais, nunca o admitiram. Xi, que já fala de olhos nos olhos, oferece a Trump aceitar a China como igual, com linhas vermelhas também delineadas por si, ou entrar numa espiral que arrisca um conflito entre duas superpotências, uma em declínio e outra em ascensão. Se Trump e os seus conselheiros entenderam o real significado da advertência de Xi, é outra questão.
Taiwan é crucial para sabermos se Trump cairá ou não na armadilha. O Congresso aprovou recentemente a venda de armas, muito significativa, no valor de 14 mil milhões de dólares e Trump ainda não decidiu sobre vai aprovar ou não tal entrega, tendo deixado a carta como trunfo para a sua visita a Pequim. Uma carta que pode representar uma linha vermelha para os chineses.
A situação da ilha rebelde é um grande problema. Os EUA têm uma política deliberadamente dúbia desde 1979, quando aprovaram a “Taiwan Relations Act”, lei absurdamente conflituante com o reconhecimento norte-americano de “Uma China”, em vigor desde 1971. Por um lado, Washington reconhece a soberania chinesa da ilha, e por outro, fornece armas ao governo separatista de Taipé. É claro, que esta política visa a desestabilização da região e impossibilitar a reunificação da China. Pequim não vai tolerar mais esta ambiguidade.
Após anos de ameaças dos EUA (e da União Europeia) em cortar a China das suas relações comerciais, basicamente é agora a própria República Popular que lança a mensagem que se pode desacoplar do Ocidente. Na atualidade, Pequim já tem o Sudeste Asiático completamente dominado, ao mesmo tempo que trabalha rapidamente para ter um mercado interno autossuficiente. Quem estão isolados são os EUA e a Europa.
Prevê-se que ambos os países se encontrem em mais três reuniões ainda este ano, para dissipar as tensões e desavenças, com um marco estratégico claro: ou os EUA entendem que têm um igual, ou haverá um choque mais cedo ou mais tarde. Chegámos a um novo equilíbrio internacional, que já vinha anunciado desde os tempos da pandemia, mas que muitos preferiam não querer acreditar, preferindo fantasiar com a eternidade do império norte-americano, contra todas as evidências.
A pergunta que se faz agora é que fará Trump? Após a sua histórica visita a Pequim em 2017, pautada pela boa disposição, a assinatura de vários acordos e a cordialidade, Trump deu início a uma guerra comercial de vários anos, ao impor tarifas generalizadas sobre produtos chineses. Nada daquilo reverteu a ascendência chinesa e decadência norte-americana; antes pelo contrário, até acelerou o processo. Em todo o caso, aquela guerra comercial foi declarada na década passada, quando os EUA ainda tinham algumas cartas na manga; agora todas as cartas estão nas mãos de Xi.