Fui ver a estreia de Disclosure Day e saí mexido. Chorei, até. Não pelo “espectáculo alienígena”, nem pela nave, nem pelo mistério fácil. Chorei pelo mau trato aos seres alienígenas. Pela forma como aquilo que chega como impossível, como espanto, como presença quase sagrada, é imediatamente transformado em corpo disponível: observado, fechado, estudado, ferido.
Spielberg sabe fazer isto como poucos. Amolece-nos com a improbabilidade de um E.T. na Terra e, de repente, já não estamos a ver ficção científica. Estamos a ver uma criatura vulnerável nas mãos dos homens. E os homens, quando têm medo, poder e segredo, raramente começam pela reverência. Começam pela jaula.
O filme tem uma substância real que muita ficção científica recente perdeu. Não trata o fenómeno como mito contemporâneo vazio, nem como delírio de fórum, nem como bonecada digital para vender pipocas. Pega na pergunta mais velha - e se não estivermos sozinhos? - e responde com outra, mais desconfortável: e se o problema nunca tiver sido o alienígena, mas a humanidade que o recebe?
Também gostei da sensibilidade com a fé. O filme não ridiculariza quem acredita. Percebe uma diferença essencial: uma coisa é ter fé em Deus, no mistério, numa ordem maior do que nós; outra coisa é confiar nos homens. E os homens conseguem ser obliteradores por pura maldade, por medo, por controlo, por essa necessidade miserável de possuir até aquilo que deviam apenas contemplar.
Finalmente uma sci-fi realista. Não porque os aliens pareçam prováveis, mas porque a reacção humana parece verdadeira demais. Se um E.T. caísse na Terra, talvez não fosse recebido com música e maravilhamento. Talvez fosse fechado numa sala branca, ligado a máquinas, medido, escondido, usado, negado.
O extraterrestre chega como milagre.
Nós recebemo-lo como crime.