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Há datas que parecem escolhidas pela literatura para desafiar a lógica da história. O 14 de junho é uma delas.
Foi num 14 de junho - de 1928 - que nasceu Ernesto “Che” Guevara, o revolucionário que transformou a própria vida em travessia, combate e mito. E foi também num 14 de junho, exatos 58 anos depois, em 1986, que Jorge Luis Borges ganhou a eternidade, deixando para trás os labirintos, espelhos e bibliotecas que reinventaram a literatura do século XX.
Dois argentinos universais. Dois destinos opostos e, ao mesmo tempo, inseparáveis na memória do continente. Um procurou mudar o mundo com a ação; o outro, com as palavras. Um percorreu montanhas e trincheiras; o outro, os corredores infinitos da imaginação. Ambos, cada qual à sua maneira, sobreviveram ao tempo.
Entre essas duas constelações da Argentina aparece Fabián Restivo, “fotógrafo que escreve”, nascido em 20 de junho. Foi ele quem registrou uma espécie de “selfie” avant la lettre com Borges na última entrevista concedida pelo escritor, em dezembro de 1985, às vésperas da sua definitiva viagem para a Suíça.
Restivo, que viveu em Cuba, guarda ainda outro tesouro em sua casa, em Buenos Aires: a primeira impressão da fotografia icônica do Che, presente que recebeu do amigo Alberto Korda.
Autor de “Palavras para depois: conversas com Pepe Mujica” — obra que tive a honra de traduzir —, Restivo também foi o fotógrafo oficial da expedição cubano-argentina que encontrou os restos mortais do Che na Bolívia, em 28 de junho de 1997.
Como se a história tivesse decidido unir, pelas lentes de um mesmo homem, o último retrato de Borges e a memória reencontrada de Che. Dois argentinos que compartilharam um 14 de junho, mas seguiram caminhos tão distintos quanto inesquecíveis.