O número e nome nas costas da camisa podem ser tratados como um detalhe para alguns. Para a Coreia do Sul, eles vêm, há pelo menos duas Copas, servindo de ferramenta para confundir o scout de seleções adversárias a partir da percepção de que o olhar ocidental para asiáticos pode ser atravessado por um racismo que apaga individualidades.
Às vésperas da Copa, lá em 2018, a Coreia do Sul trocou a numeração usual de seus jogadores durante amistosos de preparação. Em 2026, repetiu a ação. O PELEJA te explica melhor como o time asitático quer usar isso como vantagem futebolística.
Esse tipo de racismo não se resume a insultos diretos. Ele muitas vezes aparece como “simplificação” de nomes vistos como “difíceis demais”, traços físicos reduzidos a um conjunto de estereótipos, como se “todos fossem iguais”, e comentários que tratam pessoas de países e culturas diferentes como se fossem uma massa única.
Há um efeito prático nessa redução. Quando alguém enxerga um grupo como homogêneo, tende a registrar menos nuance e menos detalhe. O preconceito, além de ser uma violência, é um tipo de “erro de leitura”. Uma forma de olhar que economiza esforço, substitui atenção por atalho mental e troca curiosidade por generalização.
Antes da Copa de 2018, em meio a relatos de observação de treinos, preocupação com a vigilância e possível espionagem dos adversários, o então técnico da seleção da Coreia do Sul, Shin Tae-yong, autorizou que vários jogadores atuassem em amistosos com números trocados.
A justificativa do treinador foi bem explícita: ele disse acreditar que os ocidentais teriam dificuldade em distinguir jogadores asiáticos. A Coreia não afirmou que seus atletas eram iguais. O que ela fazia era partir do pressuposto de que alguns observadores poderiam enxergá-los como se fossem.
Anos depois, agora em 2026, nos amistosos contra Trinidad & Tobago e contra El Salvador, a Coreia do Sul voltou a mexer na numeração. O craque Son, que joga com a 7, foi de 13; o zagueiro do Bayern, Kim Min-jae, que geralmente usa o número 4, jogou com a 16.
Essa estratégia carrega uma contradição inevitável. Ela depende de o estereótipo existir do lado de fora, e isso é justamente o que torna a história desconfortável. Não se trata de validar o racismo, mas de expor o mecanismo: quando alguém insiste em não enxergar indivíduos, pode ser conduzido a conclusões erradas por confiar demais na própria generalização.
Em 2018, o próprio técnico reconheceu que a ideia não alcançou o objetivo como ele esperava em determinado momento. Em 2026, não houve nenhuma declaração direta de um membro da comissão técnica sobre o assunto, mas ao olhar para experiência do passado, é de se imaginar que reavaliaram a estratégia e tentaram repeti-la para quem sabe agora ir mais longe no torneio.
Curiosamente, nas últimas 3 Copas, a única que não teve o embaralhamento do número das camisas, foi quando a Coreia do Sul não tinha um técnico coreano, em 2022, quem estava no comando era o português Paulo Bento.
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