Ontem eu fiz uma postagem sobre a Zanatta e curiosamente apareceram inúmeras pessoas nos comentários dizendo: "A Direita só existiu por causa do Bolsonaro".
Então, vamos lá....
A narrativa de que a Direita brasileira nasceu com Bolsonaro é uma das maiores distorções políticas criadas nos últimos anos. A Direita no Brasil sempre existiu, e muito antes de Bolsonaro sequer sonhar em disputar a Presidência. Houve movimentos conservadores, liberais, nacionalistas e defensores de livre mercado em diferentes períodos da história brasileira, desde a oposição ao projeto estatizante do varguismo, passando pela resistência ao avanço da esquerda revolucionária durante a Guerra Fria, até intelectuais e lideranças políticas que defenderam valores de direita quando isso sequer era popular.
O próprio Bolsonaro jamais foi um representante da Direita em termos ideológicos. Durante quase três décadas como deputado federal, esteve vinculado ao CENTRÃO tradicional de Brasília, passando por diversos partidos sem qualquer compromisso programático claro. Mais do que isso: ele mesmo declarou inúmeras vezes fazer parte do Centrão, grupo político conhecido justamente por negociar apoio em troca de poder, cargos e conveniência, não por defender princípios ideológicos sólidos.
Reduzir a Direita brasileira a Bolsonaro é não entender a história política do país. A Direita não pertence a uma família, a um sobrenome ou a um líder momentâneo. Ela é formada por milhões de brasileiros que defendem soberania nacional, responsabilidade fiscal, liberdade econômica, segurança jurídica, valores institucionais e um Estado menos aparelhado.
Criou-se no Brasil uma lógica perigosa: quem não presta VASSALAGEM absoluta a Bolsonaro é imediatamente tratado como traidor. Mas a Direita verdadeira não pode se transformar em culto de personalidade. Nenhum político é dono de um campo ideológico inteiro.
Bolsonaro foi um fenômeno eleitoral importante em determinado momento histórico, mas confundir isso com a origem da Direita brasileira é ignorar décadas de história e cair numa visão personalista que enfraquece o próprio campo conservador no longo prazo. A Direita existia antes dele, continuará existindo depois dele, e não precisa estar subordinada a um Bozonaro para sobreviver politicamente.
Veja no vídeo o que o próprio Bolsonaro tem a dizer....
A Júlia Zanatta parece não perceber o tamanho do erro estratégico que está cometendo ao comprar essa guerra interna que jamais foi dela. Essa disputa entre a Direita e a Direita Trans do Eduardo Bolsonaro foi iniciada por ele, movida muito mais por ego, necessidade de controle e a velha tentativa da família Bolsonaro de decidir quem pode ou não existir politicamente dentro da direita.
A Júlia construiu, ao longo do tempo, um público sólido dentro da bolha bolsonarista. Conquistou espaço, apoio e relevância. Mas entrar de cabeça nessa guerra pessoal dos Bolsonaro dificilmente vai terminar bem para ela.
A história já mostrou como a família Bolsonaro opera politicamente: enquanto você serve ao projeto deles, existe apoio, espaço e afago público. No momento em que deixa de ser útil ou se torna um custo, o descarte vem sem qualquer cerimônia. Já vimos isso acontecer inúmeras vezes com aliados que um dia foram tratados como indispensáveis.
E é curioso ver a Júlia defendendo esse tipo de ataque ao NOVO e ao Zema, quando a realidade é que a direita brasileira precisa aprender a conviver com divergências internas, em vez de se submeter a uma lógica onde tudo gira em torno dos interesses de uma única família.
E deixo claro: não digo isso para atacar a Júlia. Pelo contrário, digo justamente porque gosto dela e reconheço o capital político que ela construiu. Mas entrar numa guerra iniciada pelos Bolsonaro, acreditando que sairá fortalecida, me parece um erro enorme.
Meu conselho é simples: deixe essa briga para os Bolsonaro. Foram eles que começaram. Porque, se essa estratégia der errado e o apoio desaparecer, infelizmente ela descobrirá da pior forma algo que muitos outros já aprenderam antes: lealdade, nesse grupo, costuma valer só até o momento em que deixa de ser conveniente.
Se a Júlia começar a brigar com o partido NOVO por causa do Eduardo Bolsonaro, ele sentirá que ela deve ir ainda mais longe e logo exigirá que ela esteja defendendo os milhões enviados pelo Vorcaro, e os rolos do PL com Castro no RJ, e muitos outros escândalos que devem aparecer nas próximas semanas, e então, no fim disso tudo a única reputação que a Júlia terá é de vassalagem aos Bolsonaros.
Espero que ela veja que a família Bolsonaro quer acabar com ela e não FORTALECÊ-LA.