A objeção mais popular ao aborto por diagnóstico de Down costuma aparecer em tom compassivo e cheio de exibição de virtudes: “essa criança teria uma vida sofrida”; “os pais não merecem perder a própria felicidade”; “seria cruel obrigar todos a viver assim”. A forma mais forte do argumento merece ser reconhecida antes da refutação.
Ela diz o seguinte: pais têm responsabilidade moral de evitar sofrimento previsível; uma criança com síndrome de Down enfrentará limitações, dependência e dificuldades; cuidar dela exigirá sacrifícios durante toda a vida; portanto, abortar pode ser uma decisão prudente para os pais e misericordiosa para a criança.
O argumento parece humano porque fala em sofrimento. Sua falha nasce quando converte sofrimento previsto em autorização para eliminar quem sofrerá.
Sofrimento pede cuidado, tratamento, presença, apoio material e responsabilidade compartilhada. Quando passa a justificar o aborto, a compaixão muda de objeto: abandona a criança vulnerável e passa a proteger o conforto de quem decide. A criança desaparece como alguém e reaparece como custo, risco, interrupção biográfica. É, portanto, um direito.
Há aqui uma premissa oculta: uma vida com deficiência, dependência ou dor previsível possui valor menor. Sem essa premissa, a conclusão não fecha. Com ela, o argumento revela seu critério: certos seres humanos precisam demonstrar qualidade de vida suficiente para merecer nascer e não se tornarem um estorvo para mais amorosos.
Você goste ou não, esse critério pertence à gramática da eugenia, ainda que sem uniformes, decretos ou programas estatais totalitários do século 20. Trata-se de eugenia em sentido moral: seleção de vidas humanas a partir de uma característica biológica considerada indesejável. A criança não é rejeitada por algo que fez, por uma ameaça que criou, por culpa alguma. Ela é rejeitada por ser quem é: um ser humano com trissomia 21.
A felicidade dos pais é um bem real. Cuidar de uma criança com deficiência pode custara sono, dinheiro, casamento, carreira, planos. Tratar isso como fantasia edificante seria indecente. Mas nenhum desses custos altera a identidade daquele que será morto. A pergunta decisiva permanece: quem é esse?
Se é um filho humano inocente, o peso do cuidado funda deveres de amparo familiar, médico e social. Não funda poder de morte.
A criança com Down não precisa provar que será feliz para ter direito de nascer. Aliás, ninguém nasce com essa obrigação absurda. A dignidade humana não depende da promessa de uma vida feliz, produtiva, leve, saudável ou admirável aos olhos dos outros. Quando exigimos essa promessa antes de reconhecer o direito à vida, já trocamos a dignidade por uma fantasia patética: a de que só merece viver quem oferece aos demais uma biografia aceitável.