Depois de alguns anos, resolvi assistir novamente a Watchmen (2009). E continuo considerando-o um dos melhores filmes de super-heróis (não tão super-heróis assim) já realizados.
Então, como na primeira vez, eu fiquei pensando no Dr. Manhattan após aparecer os créditos finais do filme. Não por causa dos poderes, embora sejam impressionantes: a capacidade de desmontar matéria, de existir simultaneamente no passado e no futuro, de reconstruir corpos. Mas, desta vez, fiquei pensando nele por outro motivo: ele sabia demais, sabia de tudo. E, de certa forma, isso foi suficiente para afastá-lo de tudo aquilo que o tornava humano.
Alan Moore fez uma coisa estranha e genial com Watchmen. Em vez de nos dar um super-herói, nos deu um importante experimento filosófico. Manhattan não vive o tempo como nós, ou seja, aquela sequência ansiosa de antes e depois, do ontem que passou e do amanhã que a gente não sabe bem como vai ser. Para ele, tudo já está resolvido. O tempo é uma mesa posta. Não existem escolhas de verdade. Existe apenas a execução de algo que já estava decidido antes mesmo de começar.
Isso tem até um nome filosófico: determinismo. Laplace, no século dezenove, imaginou uma inteligência capaz de conhecer a posição e o movimento de cada partícula do universo, e concluiu que essa inteligência poderia prever absolutamente tudo. O futuro inteiro, revelado como uma equação já resolvida. Bonito como ideia. Aterrorizante como vida.
E aí está o problema do herói azul. Ele não abandona a humanidade por arrogância, ou por crueldade, ou porque passou a nos achar patéticos, embora, convenhamos, a gente dê muitos motivos pra isso. Ele nos abandona porque a surpresa foi embora. Porque, quando nada pode te surpreender, é difícil se importar de verdade com alguma coisa. O conhecimento absoluto cobra um preço que nenhum superpoder consegue pagar: ele leva junto o encantamento.
Então, foi pensando nisso que o vi na realidade de hoje, pois, de certo modo, estamos construindo algo bem parecido.
Não exatamente um deus azul que flutua sobre Marte, mas sistemas que analisam volumes de informação que nenhum ser humano conseguiria processar em várias vidas infinitas. Que identificam padrões onde a gente mal consegue enxergar algum ruído visual. Que respondem perguntas complicadas em frações de segundo. Em alguns domínios, esses sistemas sabem mais do que qualquer pessoa viva. E, apesar disso tudo, ou talvez por causa disso tudo, sei lá, continuam sem chegar perto daquilo que faz a experiência humana valer alguma coisa.
Uma IA pode até prever qualquer palavra que vem depois. Mas ela não pode querer que venha outra. Ou seja, ela não tem domínio sobre a percepção do conhecimento. Ela não tem emoção. Pode catalogar expressões de tristeza, mas não pode acordar às três da manhã com aquela tristeza sem nome que a gente nem sabe de onde veio. Ou sabe, mas prefere ficar caladinho só matutando.
Tem algo de irônico nisso tudo e Moore, me parece, sabia exatamente o que estava fazendo. Watchmen foi publicado em 1986, mas a metáfora parece ter amadurecido com o tempo, como essas e várias outras histórias que ficaram mais verdadeiras quanto mais o mundo ao redor delas avançou.
Quanto mais nos aproximamos de inteligências que conseguem saber quase tudo, mais fica claro que o valor da vida nunca esteve no conhecimento. Sempre esteve na incerteza, na dúvida, no questionamento. Na possibilidade real de errar tentando acertar. Na expectativa de algo que ainda não aconteceu. No fato de que amanhã, por mais que a gente tente prever, ainda guarda alguma coisa que não está completamente decidida. Na verdade, para o amanhã nada está decidido.
Dr. Manhattan tinha um poder que a maioria das religiões reservou para seus deuses. O que ele não tinha era a única coisa que, ao que parece, torna a existência humana realmente interessante: a capacidade de não saber o que vem depois. De acordar e pensar: o que será que vai acontecer hoje?
Nós ainda podemos fazer isso.