"Pode fazer direto."
Foi isso que Paula Lopes respondeu quando uma veterinária perguntou se devia fazer exames antes de eutanasiar uma cadela chamada Pedrita. Sem diagnóstico. Sem chance. Sem hesitação.
Enquanto mandava essa mensagem, o instituto que ela presidia publicava nas redes: "Pelo amor, NÃO DEIXEM DE CONTRIBUIR. Só a consulta domingo, R$250, fora que vai ter que ficar internado."
O dinheiro entrava. Pedrita morria.
As mensagens estavam no celular dela. A Polícia Civil encontrou tudo na segunda fase da Operação Carrasco, deflagrada nesta segunda-feira (15/06/2026). Paula Lopes — ex-secretária de Bem-Estar Animal de Canoas e presidente de uma ONG de resgate animal — teria ordenado a morte de animais doentes enquanto usava esses mesmos bichos para pedir dinheiro na internet. Doenças com tratamento. Animais com chance. Campanhas ativas pedindo doação.
No caso de Pedrita, a veterinária ainda avisou que suspeitava de cinomose. Paula mandou pular os exames e ir direto. E pediu segredo: "Não fala nada pra [nome ocultado], mas pode colocar pra descansar."
Tinha mais. Um gato resgatado no bairro Partenon, em Porto Alegre, com esporotricose — doença de pele, tratável. A veterinária disse que conseguia tratar, que já havia tratado outros casos assim. Paula encerrou a conversa com uma frase: "Fazer o que tem que ser feito, se é que me entende."
A polícia entendeu. E nós também.
O esquema, segundo a investigação, seguia um roteiro: animal resgatado, foto nas redes, campanha de arrecadação, dinheiro entrando — e eutanásia sendo executada nos bastidores, sem laudo, sem exame, sem dar ao bicho a chance que quem doava acreditava estar pagando.
Paula foi presa nesta manhã. Dois veterinários que trabalhavam para ela também. Foram cumpridos 12 mandados de busca e apreensão em clínicas veterinárias e num crematório de animais. Uma policial civil teve o celular apreendido — a suspeita é de que ela tenha avisado Paula sobre a primeira fase da operação antes que chegassem.
Na delegacia, Paula disse que "não havia eutanásias desnecessárias" e que laudos técnicos provam tudo. Os laudos que, segundo a polícia, ela mesma mandou não fazer.
A defesa disse que ainda não teve acesso à investigação completa.
Os animais não tinham como se defender. As mensagens fizeram isso por eles.