Gurujī Sthaneśvar Timalsina (2022):
“Em essência, a compreensão sāṃkhya é a de que o mundo é um processo organísmico que carece de um começo ou fim reais. Trata-se de um sistema fechado no sentido de que não há uma agência externa, e o dinamismo de prakṛti, a natureza, não possui uma teleologia predeterminada nem uma teleologia imposta por algum fator externo. Se puruṣa fosse expurgado da matriz da metafísica sāṃkhya, então a mudança em si mesma seria cega.”
Isso é interessante porque temos aqui uma descrição disteleológica da natureza, que basicamente antecipa um insight que só iria vingar de vez 1.500 anos depois com Darwin e Mayr, no contexto da síntese evolutiva moderna, ou, numa estimativa mais baixa, 1.300 anos depois, se formos contar a célebre negação da teleologia fundamental na natureza por Espinoza.
A metáfora clássica do cego e do coxo/aleijado no Sāṃkhyakārikā s. 22 também é muito boa: um possui movimento sem visão, a natureza; o outro possui visão, mas sem nenhum movimento, o espírito; só juntos há processo, dispensando aqui um designer pessoal controlando tudo de fora.
A natureza aqui é inconsciente, sem teleologia intrínseca nas suas constantes evoluções, pariṇāma; mas seu desdobramento não é totalmente sem direção apenas na medida em que ela evolui, diferencia-se, produz buddhi, intelecto, ahaṃkāra, ego, mente, sentidos, mundo fenomênico e experiência, e torna possível a experiência, o discernimento e, no fim, a libertação de puruṣa, que a observa sem interagir com ela. Mas tal direção não é algo “dela” ou imposto por um agente de fora dela, como no teísmo; em si mesma, ela é disteleológica.
É justamente aí que o Sāṃkhya antecipa uma intuição muito moderna: a natureza pode gerar ordem, ela pode gerar também a complexidade, as estruturas vivas, a própria cognição e até condições para a libertação sem precisar ser intrinsecamente guiada por intenção, previsão ou propósito. Nesse sentido, o Sāṃkhya já separa processo de design, organização de agência pessoal, e direção funcional de finalismo intrínseco. Prakṛti pode se desdobrar em estruturas cada vez mais complexas sem “visá-las” em sentido psicológico pois sua evolução não é a execução de um plano, mas o dinamismo interno dos guṇas.
A única “teleologia” no Sāṃkhya, portanto, não é intrínseca a prakṛti, mas relacional (e diria eu dialética): ela aparece apenas pelo contato, proximidade ou conjunção, saṃyoga, entre prakṛti e puruṣa. Prakṛti é “para” puruṣa apenas no sentido de que, quando refletida na presença da consciência, suas transformações cegas se tornam o campo da experiência, do discernimento e da eventual libertação. Mas prakṛti não conhece puruṣa, não deseja a libertação, nem delibera em direção a um fim. Seu suposto propósito não é uma intenção interna, mas uma relação explicativa que surge apenas quando prakṛti é compreendida em conexão com puruṣa.
Podgorski (1984) enfatiza justamente esse ponto ao falar da “vocação” de prakṛti: prakṛti se desdobra para o prazer/experiência e libertação de puruṣa, mas ela o faz como uma natureza dinâmica, não como uma mente deliberativa. E a imagem da dançarina que eles usam é ainda mais forte: prakṛti dança, exibe seus guṇas, revela todo o campo fenomênico e, quando é vista, cessa sua atividade.
Uma natureza cega, inconsciente e não-teísta, cujas transformações não são impostas de fora por um artesão divino, mas que ainda assim se tornam inteligíveis como experiência e libertação quando colocadas em relação com puruṣa. Por isso, o sistema consegue afirmar uma espécie de inteligibilidade cósmica sem transformar o cosmos em artefato, e uma espécie de direcionalidade sem transformar a natureza em mente - ou seja, um axiarquismo minimalista. Essa é a grandiosidade do Sāṃkhya.