𝗢 𝗣𝗮𝗿𝗮𝗱𝗼𝘅𝗼 𝗡𝗲𝘁𝗮𝗻𝘆𝗮𝗵𝘂
Poucos líderes moldaram Israel de forma tão profunda quanto Benjamin Netanyahu.
Para seus admiradores, ele será lembrado como o homem que transformou Israel em uma potência econômica global, fortaleceu sua posição militar, expandiu suas relações diplomáticas e ajudou a consolidar o país como um dos principais polos tecnológicos do planeta. Para seus críticos, será recordado como o líder que aprofundou divisões internas, enfraqueceu instituições democráticas, normalizou o extremismo político e conduziu Israel a uma das maiores crises de legitimidade internacional de sua história.
Ambas as visões contêm elementos de verdade. E é justamente por isso que Netanyahu representa um dos personagens políticos mais complexos do século XXI.
Análises sérias não podem se permitir o conforto das caricaturas. Netanyahu não é o ditador que alguns de seus críticos imaginam. Tampouco é o estadista infalível retratado por muitos de seus apoiadores. Seu legado não pode ser compreendido através de slogans, memes políticos ou narrativas simplificadas. Como quase tudo em Israel, ele exige uma análise mais cuidadosa.
O problema central não é que Netanyahu tenha sido um fracasso. Pelo contrário. Parte significativa de sua influência política decorre justamente de seus sucessos. Sua longevidade não foi fruto do acaso. Ela foi construída sobre conquistas reais, capacidade política excepcional e uma compreensão profunda da sociedade israelense.
A questão que precisa ser feita não é como Netanyahu chegou ao poder, e sim o que aconteceu depois de permanecer nele por tanto tempo.
Existe uma diferença fundamental entre utilizar o poder para implementar uma visão de país e utilizar a visão de país para preservar o poder. Toda democracia enfrenta esse risco. Em determinados momentos, líderes deixam de enxergar o governo como instrumento e passam a enxergar o próprio governo como finalidade. A sobrevivência política deixa de ser uma condição para governar e passa a se tornar o próprio projeto de governo.
É essa transformação que define o paradoxo Netanyahu.
Ao longo de décadas, Netanyahu ajudou a construir parte do Israel moderno. Entretanto, na tentativa de preservar sua posição, contribuiu para processos que enfraqueceram justamente algumas das instituições, consensos e valores que permitiram o sucesso israelense. A normalização de correntes extremistas, a crescente hostilidade às instituições de controle democrático, a deterioração da coesão social, a incapacidade de apresentar uma visão estratégica para o conflito israelense-palestino e a transformação do sionismo, aos olhos de milhões de pessoas, em algo muito mais estreito do que historicamente sempre foi, constituem partes inseparáveis desse legado.
Este artigo não é uma tentativa de demonizar Netanyahu e tampouco é uma tentativa de absolver seus adversários, mas sim de compreender um paradoxo.
Como um líder que contribuiu tanto para a força de Israel acabou ajudando a fortalecer algumas das forças que hoje ameaçam sua coesão, sua democracia, sua legitimidade internacional e até mesmo a compreensão pública do que o sionismo realmente significa.