«Mães, desmamai os vossos filhos, amai-os, mas orai por eles para que vivam muito acima desta terra; não sobre a terra, mas acima dela, pois não há nada de duradouro nesta terra, e o que muito dura é, contudo, breve e muito frágil. Exortai-os antes a tomar a Cruz do Senhor do que a amar esta vida.
Maria, a mãe do Senhor, manteve-se de pé junto à Cruz de Seu Filho; ninguém me ensinou isso senão o santo evangelista São João (João 19,25). Outros relataram como a terra tremeu na paixão do Senhor, como o céu se cobriu de trevas e o sol se retirou (Mateus 27,45); e que o ladrão, após uma fiel confissão, foi recebido no paraíso (Lucas 23,43). João nos conta o que os outros não contaram: como o Senhor, pregado na Cruz, chamou Sua mãe, julgando ser de maior valor que, vitorioso sobre os Seus sofrimentos, rendesse a ela os ofícios de piedade filial, do que se Lhe desse um reino celestial. Pois, se condiz com a religião conceder o perdão ao ladrão, é sinal de muito maior piedade que uma mãe seja honrada com tamanho afeto por Seu Filho. "Eis aí", diz Ele, "o teu filho... Eis aí a tua mãe" (João 19,27).
Cristo testificou a partir da Cruz e dividiu os ofícios de piedade entre a mãe e o discípulo. O Senhor fez não apenas um testamento público, mas também um privado, e João assinou este Seu testamento, uma testemunha digna de tão grande Testador. Um bom testamento, não de dinheiro, mas de vida eterna, que foi escrito não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, que diz: "Minha língua é a pena de um escriba ágil".
Tampouco esteve Maria aquém do que convinha à mãe de Cristo. Quando os apóstolos fugiram, ela permaneceu de pé junto à Cruz, e com olhos piedosos contemplou as feridas de Seu Filho, pois não ansiava pela morte de seu Fruto, mas pela salvação do mundo. Ou, porventura, porque aquela morada real sabia que a redenção do mundo se daria pela morte de Seu Filho, ela julgou que, com a sua própria morte, também poderia acrescentar algo ao bem público. Mas Jesus não precisou de um ajudante para a redenção de todos, Ele que salvou a todos sem nenhum auxílio. Por isso também Ele diz: "Tornei-me como um homem sem amparo, livre entre os mortos". Ele recebeu, de fato, o afeto de Sua mãe, mas não buscou o auxílio de outrem.
Imitai-a, santas mães, ela que, em seu único e amadíssimo Filho, estabeleceu tão grandioso exemplo de virtude maternal; pois nem vós tendes filhos mais doces, nem a Virgem buscou a consolação de poder gerar um outro filho.»
— Santo Ambrósio, Carta 63, n. 108-111.