acrescento: o filme respeita singela e descaradamente clichês que hoje soam como comicamente datados, mas que entende que faz parte do DNA da franquia, e tira um sarro de maneira respeitosa e que ainda faz sentido dentro da lógica interna do filme
um exemplo que talvez possa ser spoiler, mas é o mais próximo que eu consigo pensar:
adam sai de fininho pra virar o he-man, mesmo com os personagens meio "ow, mas a gente sabe que ele é o he-man, ele precisa fazer isso?" e o mentor "eh, deixa o guri, ele é assim mesmo"
isso funciona porque tem uma mensagem de "seja você mesmo" em algum momento do filme, mas também porque o adam viveu e cresceu no nosso mundo, acostumado com o conceito de dupla identidade de super-heróis
Mestres do Universo: o novo He-Man tenta, mas não consegue ser woke
Em poucos dias de exibição, esse já é o longa mais comentado do ano. Grande sucesso no Brasil, polêmica nas redes. Homenagem justa ou panfleto esquerdista?
Vamos falar disso, mas já adianto: um filme muito bom.
Primeiro, vou falar de alguns aspectos impecáveis. A fotografia, o visual, a ambientação e a paleta de cores são perfeitos. Sem nenhuma vergonha de ser colorido, no melhor sentido possível, o filme realmente parece um episódio do desenho animado transposto para o cinema.
Tudo é vibrante, divertido, otimista e cheio de vida. Nada sombriou, cínico ou dark. Tudo do jeito que todos os filmes de heróis, sejam baseados em animações ou quadrinhos, deveriam ser.
A trilha sonora também é épica, com músicas do Queen e novos temas orquestrados (embora o tema clássico já seja perfeito e pudesse ter aparecido mais vezes).
O ritmo é competente, mesmo sendo um filme longo, com mais de duas horas de duração. E os efeitos especiais também impressionam, com sequências dignas de Star Wars, de quando a saga ainda era boa.
Mas a principal questão é: destruíram He-Man com militância woke, como muita gente tem dito? Foi tudo subvertido, como vem acontecendo com frequência no cinema atual?
Minha resposta é simples: tentaram, mas não conseguiram.
Existem, sim, alguns elementos lacradores, como a troca de raça de personagens, desde um dos principais, Mentor, até vários secundários, como Roboto, Ariete e Triclope. Teela realmente assume uma postura de liderança que nunca teve. Mentor, além de ter sua raça alterada, é retratado como um bêbado fracassado após falhar na defesa do reino.
E o principal: durante boa parte da história, He-Man tenta resolver tudo por meio do diálogo, evitando usar sua força. Isso seria realmente ridículo se não fosse completamente desmentido pelo próprio roteiro. Apesar de tentar conversar, como inclusive fazia no desenho, o herói entende que certas situações só podem ser resolvidas pela força bruta.
Essa visão é reforçada por um grande discurso de Mentor, que se redime explicando que homens de verdade devem ser soldados dispostos a se sacrificar pelo bem maior, defendendo suas famílias até com a própria vida, se necessário. Mas sempre usando a força para deter os vilões.
Por falar em vilões, Esqueleto é incrível, acima de qualquer crítica. Cruel, mas debochado, exatamente como era no desenho. E o melhor: ele é mau porque quer ser mau. Em diversos diálogos, o vilão deixa claro que não possui nenhuma motivação nobre, nenhuma justificativa oculta, e que odeia o bem por vontade própria.
Mais importante do que qualquer troca de elenco ou adaptação visual, o filme preserva algo que Hollywood tem abandonado cada vez mais: a noção de que o mal existe. Em determinado momento, ele chega até a utilizar analogias bíblicas, assumindo algo próximo de: "sou mesmo um demônio que quer derrotar o rei". Ou seja, o roteiro afasta qualquer tentativa de justificar os atos do antagonista, sem jamais apresentar suas atitudes como válidas.
Outro fator que reforça isso é a ambientação do núcleo da Terra. Adam trabalha em um departamento de RH, cercado por lacradores retratados como figuras ridículas. Ele é perseguido por uma chefe empoderada e careca, criticado por gostar de armas e tratado como um fracassado simplesmente por ser homem. E odiado por colegas que vivem em um mundo à parte, com cabelos coloridos e atitudes covardes
Então é aquilo: sim, existem elementos lacradores. Não, não é um filme totalmente lacrador. E não, isso não estraga a adaptação.
Ao final, são três cenas pós-créditos. Isso mesmo: três. Completando praticamente tudo o que um fã poderia esperar de uma adaptação de MOTU. Uma pena que talvez isso não se refletirá em uma sequência, uma vez que a bilheteria está bem fraca nos EUA (embora batendo recordes no Brasil).
Enfim, temos um longa divisivo, que talvez nem ganhe sequência, mas que é extremamente divertido, visualmente impressionante e tecnicamente impecável.
Não é a adaptação perfeita. Não é o He-Man exatamente como os fãs dos anos 80 sonharam durante décadas. Mas, em uma época em que tantas franquias clássicas são descaracterizadas, já é uma vitória sair do cinema sentindo que Eternia ainda se parece com Eternia.
Um filme que merece ser visto no cinema, de preferência na companhia dos filhos, sobrinhos e de todos aqueles que cresceram sonhando com os Mestres do Universo.