Freiburg é um dos ótimos exemplos do que significa o futebol na Alemanha.
O importante não é vencer, é pertencer. O Freiburg é do povo da região da Floresta Negra. Ele representa os valores da comunidade.
Não por acaso os atletas ficam tantos anos no clube. O técnico Julian Schuster é um ótimo exemplo: capitão do time por uma década e treinador há dois anos.
Nos dez anos que jogou, só teve dois treinadores, um deles Christian Streich, que basicamente passou a carreira toda no Freiburg, quase 20 anos entre base e principal. E só saiu, quando Schuster assumiu. Robin Dutt, que também treinou Schuster ficou três temporadas, mas muito antes, Volker Finke também ficou mais de 15 anos no comando.
E não pense que é só no banco que as pessoas passam a vida toda no Freiburg.
Do time titular, que venceu o Braga, somente dois jogadores não têm pelo menos cinco anos de Freiburg no currículo. Dos relacionados pro jogo, mais da metade jogou na base do Freiburg em algum momento.
Freiburg é assim, as pessoas chegam e ficam. Por que? A resposta de todos os jogadores com quem falei: família.
Esse time é muito familiar. O próprio Schuster destacou em uma entrevista comigo: "aqui nós conhecemos os atletas e quem está por trás da carreira deles também e ficamos sempre próximos".
Matthias Ginter, carregado nos ombros pela torcida na classificação, não fugiu do tom: "o clube é muito familiar, todos os funcionários, o diretor esportivo. A gente tenta sempre trabalhar muito próximos e isso transparece no campo".
A cidade de Freiburg é especial. Simples e pacata, mas ao mesmo tempo cheia de vida. Tem aquela energia de cidade pequena, onde todos se conhecem, mas rodeada por paisagens naturais espetaculares, com um céu azul que inspira alegria.
Em uma Alemanha que tem Berlim, Hamburgo, Frankfurt, Colônia, cidades muito agitadas, sempre em ritmo intenso e muito urbanas, Freiburg desacelera o relógio.
Será que é o clima ensolarado, que gerou o apelido de Califórnia Alemã? A beleza natural da Floresta Negra? Não sei, mas eu, que cresci em uma cidade praiana, até me surpreendo que Freiburg não tenha praias.
Quem é de Breisgau tem seu próprio ritmo e valoriza muito isso. Existe um orgulho de pertencer e ser da região e pro torcedor é mais importante desenvolver as pessoas e manter os valores, do que ser campeão.
Nenhum torcedor do Freiburg trocaria desenvolver talentos de Freiburg, ser esse time familiar, que de fato pertence a cidade, que representa a Brisgóvia, que se preocupa com o meio-ambiente e com as pessoas antes dos atletas, por qualquer título que seja. Nem uma Champions.
Um torcedor me disse ontem antes do jogo: "não importa se a gente vai ganhar ou perder, o mais importante é que a torcida, o clube e a cidade continuem conectados. Enquanto o SC Freiburg for um símbolo de como é o povo daqui e a o ambiente daqui, todos ficarão felizes".
E isso refletiu no campo. Torcida, time e cidade, os três são apenas um. Por isso os jogadores ficaram mais de meia hora comemorando com os fãs no gramado.
Hoje todos estão felizes em dobro. Talvez triplo. Freiburg não só representa a região, ele leva esses valores pra final da Europa League e mostra pro mundo o que é ser um Freiburger.