A fome ou a ausência de comida também nos contam uma importante história.
No final da década de 1950, o jornalista Audálio Dantas cruzou o caminho de Carolina Maria de Jesus na favela do Canindé, na zona norte de São Paulo. Após uma breve conversa, ele descobriu que ela, que passava a maior parte do tempo como catadora de papel e criava sozinha três filhos pequenos, era autora de inúmeros diários. Depois de uma edição realizada por Dantas, os cadernos se transformaram no livro "Quarto de Despejo: Diário de uma favelada", publicado em 1960.
Desde a publicação, o livro vendeu milhões de exemplares. Apresentando trechos dos diários escritos por Carolina entre 1955 e 1960, essas páginas revelam versos nascidos em meio aos encontros com a fome.
Ela fala muito sobre comida ao longo do livro porque sonha muito com comida. "A toalha era alva ao lírio. Eu comia bife, pão com manteiga, batata frita e salada. Quando fui pegar outro bife, despertei", relata.
Além disso, Carolina anseia pelo dia que poderá dar bacalhau aos filhos, enquanto assiste aos donos de armazém jogando fora quilos do peixe. Como se não bastasse, ainda colocavam creolina para impedir que pessoas revirassem o lixo.
É impossível não se emocionar quando os filhos pedem bolo no aniversário, mas ganham polenta. "Quem sou eu para fazer bolo?", indaga ela.
Com dez livros em seu repertório, sendo seis deles lançados após a morte, Carolina nos permitiu vivenciar as agruras e as angústias de uma vida onde a comida era escassa e o desespero era imenso.
Sua história nos mostrou como a fome não é apenas uma questão física, é uma dimensão emocional que molda experiências de maneiras profundas.
"...A comida no estomago é como o combustível nas máquinas. Passei a trabalhar mais depressa. O meu corpo deixou de pesar. Comecei andar mais depressa. Eu tinha impressão que eu deslisava no espaço. Comecei sorrir como se estivesse presenciando um lindo espetáculo. E haverá espetáculo mais lindo do que ter o que comer?", ela escreveu em maio de 1958.
Via: capituvemparaojantar