De toda a macabra história soviética, um personagem sempre me chamou muito a atenção: Naftaly Frenkel. Por dois motivos: Ele, um judeu, foi o arquiteto dos métodos de administração que culminaram na morte de milhões de presos nos infames Gulags, e sua relativa obscuridade. Como que um homem com tanta influência e poder sob Stálin ainda hoje é uma figura mercurial?
Frenkel é uma figura muito estranha e até hoje não se sabe da onde veio. Solzhenitsyn afirma que ele era um "judeu turco de Constantinopla", e muito provavelmente era mesmo judeu, mas não se sabe de onde. Outros afirmam que veio da Ucrânia; outros, da Hungria, ou Áustria e até mesmo tentaram traçar sua origem na Suécia. Enfim, provavelmente um judeu que nasceu em Haifa em 1883, então parte do Império Otomano. Estabeleceu-se em Odessa, na Ucrânia, e se tornou um próspero comerciante.
Frenkel foi uma figura notável por isto: sua habilidade extraordinária de perceber oportunidades, o que o levou à Rússia de Lênin em 1923, durante a famosa NEP, para vender e trocar mercadoria. Por algum motivo desconhecido, Frenkel foi preso ao tentar volta a Odessa, sob a acusação de "tentar cruzar a fronteira ilegalmente". Seu grupo foi sentenciado à morte, mas apenas a sentença de Frenkel foi comutada para trabalho nos campos de concentração. O resto foi fuzilado. Até hoje não se sebe por que apenas Frenkel foi poupado e enviado aos recém-abertos Gulags.
No arquipélago de Solovetsky, de Solzhenitsyn tirou o nome de seu famoso livro, Frenkel percebeu que os campos soviéticos eram extremamente desorganizados. Segunda conta a lenda, Frenkel ficou extremamente irritado com a desorganização e ineficiência econômica do campo e, irado, escreveu uma longa carta relatando inúmeras possíveis melhorias que poderiam salvar o campo em recursos e maximizar suas capacidades (lembrem-se, ele supostamente fez ainda na condição de prisioneiro).
Frenkel botou sua carta no local de missivas para as autoridades e deixou ali, sem expectativas. Contudo, alguns dias depois, ele foi chamado por Genrikh Yagoda, então chefe da OGPU, um órgão da administração da nascente polícia secreta, a Cheka. Ygaoda ficou impressionado com as sugestões do prisioneiro Frenkel e o chamou para conversar. Foi o início da ascensão meteórica de Frenkel. Yagoda acatou as sugestões de Frenkel e lhe concedeu alguma autoridade para implementá-las, claro, ainda sob sua supervisão. A ideia de Frenkel ficou conhecida como o "Sistema de alimentação", e foi o que tornou o sistema prisional soviético na infame máquina mortífera que conhecemos.
Sendo conciso, Frenkel eliminou a distinção entre criminosos comuns e presos políticos. Ele abandonou o trabalho agrícola não lucrativo e os programas de reeducação, priorizando apenas o trabalho produtivo, como construção de estradas e extração de madeira. A recompensa era comida, e o sistema era simples e cruel: quem superasse sua cota diária de trabalho recebia uma porção extra de alimento; quem produzisse menos tinha sua ração reduzida. Ainda mais crucial, Frenkel dividiu os prisioneiros em três categorias: 1) os aptos para trabalho pesado; 2) os capazes de trabalho leve; e 3) os prisioneiros com deficiências. Cada grupo recebia tarefas e cotas diferentes a cumprir, e era alimentado de acordo. Havia diferenças drásticas entre as porções dos prisioneiros que dependiam do resultado que entregavam.
A consequência óbvia aconteceu: com o tempo, os prisioneiros saudáveis sobreviviam mais, enquanto os fracos ficavam ainda mais debilitados e morriam de fome. Sob a gestão de Frenkel, a produtividade tornou-se o único princípio que importava no campo. Quanto mais o preso trabalhava, mais comia, e vice-versa. Em verdade, foi uma aplicação sinistra e literal do adágio bíblico, mas politicamente utilizado por Lênin no seu "O Estado e a Revolução": quem não trabalha, não come. O princípio do lucro, antes tachado de "burguês", tornou-se o critério meritocrático de vida e morte para os presos do regime soviético.
Por causa do sucesso de Frenkel em levantar a produtividade do campo de Solovetsky em pouco mais de um ano, sua reputação e fama alcançaram o topo de hierarquia soviética. Stálin mandou Lazar Kaganovich chamar Frenkel para uma conversa e ficou impressionado com as aparentes habilidades organizacionais do administrador. A partir daí, Frenkel foi o chefe de várias obras públicas como o canal de navegação que conectaria o Mar Branco ao Mar Báltico - que ceifou 12 mil trabalhadores durante a construção -, e se tornou figura relevante na alta hierarquia soviética.
Sobreviveu aos expurgos stalinistas e a guerra e morreu por volta de 1960 em Moscou. Até hoje há muita pouca informação sobre a vida e o impacto que Frenkel teve em moldar o stalinismo num dos sistemas mais assassinos de toda a história humana.