“Eu não gosto do Monark.”
“Eu odeio Bolsonaro.”
“Eu acho Constantino insuportável.”
“Eu acho Nikolas perigoso.”
“Então, se calaram eles, tudo bem.”
Esse é o erro central.
A pessoa acha que está defendendo a democracia, mas na prática está defendendo uma exceção autoritária contra quem ela odeia. E toda exceção autoritária começa parecendo justa, porque quase sempre é aplicada primeiro contra alguém impopular.
O problema é que democracia não é sobre proteger quem você gosta. Democracia é sobre impedir que o Estado tenha poder ilimitado contra quem você não gosta.
Tem alguns motivos para isso acontecer:
Primeiro: tribalismo político.
Muita gente não pensa mais em certo ou errado. Pensa em “meu lado” e “lado inimigo”. Se a censura atinge o lado inimigo, ela chama de “justiça”. Se atinge o próprio lado, chama de “ditadura”.
Segundo: confusão entre consequência e censura.
A pessoa mistura tudo. Ela pensa: “falou besteira, tem que pagar”. Até aí, ok. Mas pagar por um post ilegal específico é uma coisa. Ser banido de todas as redes, proibido de falar, desmonetizado eternamente ou apagado da internet é outra totalmente diferente.
Terceiro: ódio moralizado.
Quando alguém é rotulado como “fascista”, “golpista”, “extremista” ou “desinformador”, muita gente para de se preocupar com processo, proporcionalidade e prova. A pessoa pensa: “contra esse tipo de gente, vale tudo”. Esse é o começo do abuso.
Quarto: medo de parecer conivente.
Muita gente tem medo de defender o devido processo e ser acusada de defender racismo, golpe, fake news ou extremismo. Então ela fica quieta ou apoia a punição exagerada para não parecer “do lado errado”.
Quinto: baixa compreensão de democracia.
Muita gente acha que democracia é “o lado certo vencer”. Não é. Democracia é um sistema de limites ao poder. Inclusive ao poder exercido em nome de causas bonitas.
A frase que resume tudo é:
quem apoia censura contra o inimigo não está defendendo democracia; está apenas torcendo para que o autoritarismo continue apontado na direção certa.
E isso é uma ilusão perigosa.
Porque hoje o alvo pode ser um influenciador conservador que a pessoa odeia. Amanhã pode ser um jornalista de esquerda, um humorista, um empresário, um religioso, um canal independente, um médico, um artista ou qualquer pessoa que contrarie o poder dominante daquele momento.
A pergunta correta não é:
“Eu gosto dessa pessoa?”
A pergunta correta é:
“Eu quero que o Estado tenha poder para apagar pessoas inteiras do debate público sem transparência, sem proporcionalidade e sem defesa clara?”
Se a resposta for sim, a pessoa não está defendendo democracia. Está defendendo censura seletiva.
Dá para ser contra Monark, contra Bolsonaro, contra Nikolas, contra Allan dos Santos, contra qualquer um deles, e ainda assim dizer:
“Eu quero que ele responda pelos crimes específicos que cometeu, mas eu não quero que o Estado tenha um botão para desligar a existência pública dele.”
Essa é a posição democrática madura.
O ponto não é proteger pessoas polêmicas.
O ponto é proteger a regra que impede o poder de calar qualquer um.