Há uma máxima na geopolítica que nunca envelhece: os Estados Unidos só descobrem o resto do mundo quando o quintal deles começa a pegar fogo. E, aparentemente, a fumaça vinda da América Latina finalmente cruzou o Rio Grande.
A declaração de Amanda Roberson, porta-voz do Departamento de Estado americano, não é apenas um anúncio burocrático de combate ao crime organizado! É um puxão de orelha diplomático com força de trator.
Ao cravar textualmente que a erradicação do PCC e do Comando Vermelho virou prioridade de segurança nacional para Washington, a Casa Branca carimbou o passaporte de duas marcas genuinamente brasileiras no catálogo das grandes ameaças globais.
Para o observador atento, o timing é delicioso.
Durante anos, a narrativa oficial por aqui flertou com a condescendência, tratando o avanço dessas facções como um "problema social complexo" ou, no limite da miopia, como uma exclusividade das periferias e presídios. Pois bem, o "problema complexo" cresceu, internacionalizou-se, montou redes de logística que fariam inveja à Amazon e começou a operar em dólares dentro do território americano. E se há algo que Washington não tolera, é concorrência no uso da força e no controle financeiro.
A reação nos bastidores em Brasília, previsivelmente, oscila entre o incômodo e o desespero velado. Afinal, a retórica soberanista de que "o Brasil cuida dos seus problemas" derrete quando a maior potência militar do planeta resolve que o seu problema agora é dela também.
O choro e o ranger de dentes no topo do Executivo não são por acaso: a entrada do aparato de inteligência americano no tabuleiro significa um rastreamento de fluxos financeiros que pode, eventualmente, expor conexões e omissões que muitos preferiam manter trancadas a sete chaves.
Amanda Roberson não disse apenas que o governo Trump quer eliminar o crime transnacional. Ela sinalizou que a festa da complacência acabou. Resta saber se as autoridades brasileiras vão cooperar de cabeça baixa ou se vão continuar fingindo que o vizinho do norte está apenas exagerando na dose de cafeína.