Passei quase trinta anos olhando para dentro de esquemas de corrupção e de lavagem de dinheiro. Aprendi cedo uma coisa que a notícia desta semana só confirma: o dinheiro sempre deixa rastro, e é por esse rastro que o crime organizado se enfrenta de verdade.
Na quinta-feira, os Estados Unidos classificaram o PCC e o Comando Vermelho como terroristas. A imprensa noticiou como se fosse uma medida só. Não é. São duas, e a diferença entre elas é exatamente o que importa.
A primeira, via OFAC, é financeira: bloqueio de ativos e exposição de terceiros a sanções secundárias. A segunda, a designação como organização terrorista estrangeira, acrescenta o risco criminal por “apoio material” e estende o braço da lei americana para muito além do território dos EUA.
Quando eu analisava como o dinheiro do crime entrava na economia formal, o problema quase nunca era o criminoso óbvio. Era a empresa de fachada. Era o terceiro que transacionava sem saber com quem. Era a estrutura desenhada justamente para que ninguém precisasse perguntar a origem dos recursos. É aí que mora o risco, e é aí que a designação americana agora alcança, com a regra que trata como bloqueado até quem não aparece em lista.
Por isso afirmo, com a tranquilidade de quem viu esse filme muitas vezes: o eixo do enfrentamento deixou de ser apenas penal. Passou a ser financeiro. E o financeiro não respeita fronteira.
Se eu estivesse hoje numa sala de conselho de uma instituição exposta, não perguntaria “estamos em conformidade?”. Perguntaria outra coisa, bem mais incômoda: se amanhã aparecermos, ainda que por engano, vinculados a uma dessas facções, quem aqui está preparado para responder antes que o estrago reputacional se torne irreversível?
Quem hesita ao ouvir essa pergunta acabou de descobrir a própria vulnerabilidade.