O que Nuremberg não me deixou esquecer
Terminei de assistir o filme Nuremberg com uma pergunta que me deixou inquieta.
Eu entrei esperando ver monstros.
Encontrei outra coisa.
Douglas Kelley, o psiquiatra americano encarregado de avaliar os réus, passou meses cara a cara com os arquitetos do Terceiro Reich. Aplicou testes, conduziu entrevistas, estudou cada um deles à procura daquilo que o mundo inteiro esperava que ele encontrasse: a loucura.
Ela não estava lá.
Göring era inteligente, carismático, perfeitamente lúcido. Os demais, em sua maioria, cabiam dentro dos parâmetros da normalidade psiquiátrica. Pais de família. Profissionais competentes. Homens cultos. Homens capazes de amar os próprios filhos e assinar a morte dos filhos dos outros no mesmo expediente.
Kelley voltou para casa carregando uma conclusão que destruiu a vida dele e que deveria incomodar a nossa: os nazistas não eram únicos.
Eu entendo por que essa frase é tão difícil de engolir. Se o mal fosse loucura, estaríamos seguros. Bastaria identificar os insanos e mantê-los longe do poder. Se os nazistas fossem monstros, pertenceriam a outra espécie, e a história deles não diria nada sobre a nossa.
Mas eles não eram monstros. Eram pessoas. E pessoas existem em qualquer época, em qualquer país, em qualquer ideologia.
Há uma cena do filme que me atingiu num lugar mais pessoal. Howard Triest, o intérprete judeu que perdeu os pais nos campos, confronta Kelley. E o que fica daquele diálogo é uma verdade simples e devastadora: a barbárie não venceu porque os perversos eram muitos. Venceu porque os indiferentes eram mais.
Foi aí que o filme parou de falar do passado e começou a falar de mim.
Nos últimos anos, perdi a conta de quantas vezes ouvi alguém dizer que prefere não falar sobre Israel. Sobre antissemitismo. Sobre judeus. “É complexo demais.” “Não quero me meter nisso.” “Tenho medo de falar a coisa errada.”
Eu entendo o medo. Medo de crítica, de rejeição, de ser mal interpretado. E entendo que o tema é complexo, questões geopolíticas quase sempre são.
Mas existe uma diferença entre reconhecer que um assunto é difícil e usar a dificuldade como licença para o silêncio. A complexidade virou álibi. Virou uma forma educada de desviar o olhar.
Ninguém precisa concordar comigo sobre política, sobre Israel, sobre nada. O que me entristece não é a discordância. É ver gente boa assistindo ao ódio se espalhar diante dos próprios olhos e decidindo que aquilo não é problema dela.
Porque a história já mostrou onde isso termina. O silêncio raramente protege alguém. Ele só desocupa o espaço e o espaço vazio é sempre preenchido pelas vozes mais radicais.
As duas lições de Kelley se encaixam de um jeito assustador. Os responsáveis pelo horror não eram excepcionais. E o horror não dependeu só deles. Dependeu de uma ideologia desumanizante encontrando milhões de pessoas dispostas a aceitá-la, justificá-la ou simplesmente ignorá-la.
Nós gostamos de acreditar que as atrocidades históricas exigem circunstâncias extraordinárias e vilões extraordinários. Essa crença nos acalma. Ela nos permite pensar que estamos imunes.
A história ensina o contrário.
As grandes tragédias não começam com câmaras de gás. Começam com narrativas. Com a divisão do mundo entre “nós” e “eles”. Com a transformação de adversários em inimigos, e de inimigos em coisas. Começam quando pessoas comuns se convencem de que sua causa é tão justa que dispensa limites éticos.
Hitler e Göring não inventaram o ódio. Eles o encontraram pronto, espalhado em ressentimentos, frustrações e medos cotidianos, e o transformaram em projeto político. Kelley viu isso com clareza. O ódio não desce do poder para o povo. Ele sobe. O poder só o organiza.
E esse mecanismo não tem data de validade. Não tem nacionalidade. Não tem lado do espectro político. Sempre que o ódio é tratado como virtude, sempre que demonizar substitui debater, sempre que pertencer ao grupo se torna mais importante do que dizer a verdade, os mesmos motores que Kelley identificou em Nuremberg estão funcionando. Em qualquer sociedade. Inclusive na nossa.
Nuremberg não é um filme sobre os nazistas.
É um filme sobre nós.
Sobre o que qualquer sociedade pode se tornar quando a ideologia substitui a consciência, quando a identidade coletiva substitui a responsabilidade individual, e quando o ser humano deixa de enxergar humanidade no outro.
O mal não é um fenômeno alienígena. Ele não invade de fora. Ele nasce dentro, e por isso nenhuma sociedade está definitivamente vacinada contra ele.
O problema nunca foi apenas Göring. Nunca foi apenas Hitler. Nunca foi apenas um grupo de homens sentado no banco dos réus.
O problema era, e continua sendo, a nossa capacidade de trocar princípios por ideologia, consciência por pertencimento, verdade por conveniência e responsabilidade por silêncio.
Por isso a pergunta que importa não é “como aquilo aconteceu”.
A pergunta que importa é: o que estamos deixando acontecer agora, convencidos de que somos diferentes de quem veio antes de nós?
Porque a advertência mais incômoda da história é esta: quase ninguém percebe que está caminhando para o abismo enquanto ainda está dando os primeiros passos na direção dele.