🏭 🇧🇷 Petrobras revive Fafen-SE: soberania de insumos como imperativo tardio
O Brasil é o maior importador de fertilizantes do mundo — cerca de US$ 15 bilhões em 2024, com 88% do volume total vindo do exterior. Desse montante, aproximadamente um quarto saiu da Rússia.
A Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados de Sergipe, inaugurada pela Petrobras em 1980, foi colocada em hibernação pela mesma estatal em 2018, arrendada a uma empresa privada que decretou inviabilidade econômica em março de 2024 e está sendo agora reativada, com R$ 38 milhões de investimento e a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no evento oficial de amanhã.
Esse circuito — construir, abandonar, terceirizar, ver quebrar, reativar — não é um acidente gerencial. É reflexo de uma aposta que o Brasil fez e perdeu.
A aposta foi simples: com vantagens comparativas tão evidentes em terra, clima e commodities, fazia sentido econômico importar os insumos de quem os produzia mais barato — Rússia, Bielorrússia, China, Irã — e concentrar capital no que o Brasil fazia melhor.
O problema dessa lógica, como o mercado de fertilizantes demonstrou em 2022 e voltou a demonstrar em 2026, é que ela pressupõe fornecedores estáveis.
Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, quando o Irã entrou em confronto com potências ocidentais e os preços da ureia saltaram mais de 60% até abril deste ano, o que estava em risco não era apenas a margem do produtor rural. Era a safra. E a safra, no caso brasileiro, é estrutura da balança de pagamentos.
O país que alimenta uma parcela relevante do mundo depende, para isso, de uma cadeia de fornecimento que não controla, não pode garantir e, historicamente, não se comprometeu a substituir.
A Fafen-SE reativada produz até 1,8 mil toneladas de ureia por dia e, somada às plantas da Bahia e do Paraná, deve cobrir 20% da demanda nacional de fertilizantes nitrogenados — não 20% do total de fertilizantes, o que seria outra ordem de grandeza, já que potássio e fosfato têm vulnerabilidades ainda mais agudas (dependência externa de 96% e 72%, respectivamente).
Sete por cento da ureia consumida no Brasil, que é o que a Fafen-SE representa isoladamente, é pouco para chamar de soberania — só o suficiente para demonstrar que o movimento é real, mas está no começo de uma curva que o Plano Nacional de Fertilizantes projeta levar até 2050 para reduzir a dependência externa de 88% a 50%.
Parece mais provável que a Fafen-SE opere dentro da capacidade projetada e contribua para moderar, na margem, a exposição brasileira a choques de ureia, sem alterar a estrutura de dependência em potássio e fosfato, onde a vulnerabilidade é sistêmica e não tem equivalente doméstico, por enquanto.
Há margem para que a combinação de alta de preços globais, pressão de sanções e ciclo político favorável acelere novos investimentos no setor, incluindo o potássio de Sergipe, onde a família Batista negocia com o BNDES a ampliação de uma mina que hoje produz 400 mil toneladas e tem capacidade técnica para cinco vezes isso.
Não pode ser descartado que uma nova ruptura de oferta — conflito no Oriente Médio que feche o Estreito de Ormuz para cargas russas ou nova escalada de restrições chinesas às exportações de fosfatados — force uma reação dos mercados e precipite uma aceleração mais agressiva dessa política antes que ela esteja madura para sustentá-la.
A tensão que permanece, independentemente do cenário que se realize, é esta: o Brasil parece estar construindo, peça por peça, uma política de soberania de insumos. Em vez de um projeto coordenado de substituição de importações em fertilizantes, o que existe é uma série de reativações e anúncios que chegaram com um certo atraso.
A questão que nenhum ator resolve é se a urgência geopolítica — que agora pressiona de fora — vai ser suficiente para sustentar, dentro, o capital político e o investimento privado necessários para fechar uma brecha de décadas antes que o próximo choque de oferta chegue antes da capacidade instalada.