A figura histórica de Josef Stálin representa o ápice de um aspecto inevitável de toda a realidade política: ideias e ideologias, não importa quão “científicas” e “neutras” desejem ser, sempre se encarnam na figura decisória de um homem ou de poucos homens.
Fórmulas marxistas como a "ditadura do proletariado" ou "forças produtivas" que supostamente engendram "contradições na base produtiva da sociedade", são apenas figuras de linguagem sem qualquer lastro na realidade, e muito das ideias e discursos políticos são sustentados em insossas figuras de linguagem. Toda ideologia se transmuta, quando confrontada com a realidade, em algo imprevisível e que acaba sendo racionalizada ad-hoc.
O exemplo, aqui, é o "centralismo democrático", ideia leninista de criar uma democracia decisória dentro da já profundamente hierárquica e autocrática ditadura do Partido de Vanguarda. Isso já uma degeneração dos conceitos marxistas originários onde supostamente uma "classe" tomaria o poder. De classe para um partido, de um partido para um indivíduo, a realidade vai lentamente forçando as figuras de linguagem a se tornarem carne e osso.
Se o ideário era que uma classe pudesse coletivamente se apossar e administrar os meios de produção, Lênin o transmutou na mais prática ideia de um partido de elite de revolucionários se incumbirem dessa responsabilidade em nome da classe proletária. Dentro da estrutura soviética dos anos 1920, a prática revelou que o homem mais astuto e inescrupuloso poderia se incumbir de tomar essa decisão em prol de ambos, dos outros revolucionários e da classe proletária. A realidade do poder e da hierarquia partidária não deixou mais margem para o democratismo intrapartidário, mas apenas para o centralismo que adquiriu um "CPF" específico: Josef Vissariónovitch "Stalin" Dzhugashvili.
Ideias, ideários e ideologias não existem; suas formulações são como fantasmas conjurados para tentarem se adequar à realidade que os molda e os transforma em assombrações imprevisíveis.