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@Estadao tem um problema de coerência editorial.
Ontem, o jornal publicou um editorial comentando mais um caso de rejeição internacional aos desmandos de Alexandre de Moraes na sua perseguição a bolsonaristas. O texto lembra que muitas pessoas e instituições estão alertando há anos no Brasil que Moraes não pode ser vítima e juiz ao mesmo tempo, entre outras irregularidades do ministro e do STF em processos como o de Carla Zambelli que motivou a recusa da Corte de Cassação da Itália com a denúncia de parcialidade do juiz e da corte.
Mais que isso: o editorial chega a bater em quem dispensou essas críticas: “Durante anos, críticas dessa natureza foram repudiadas como reações partidárias ou tentativas de 'extremistas' de deslegitimar o Supremo.” (
estadao.com.br/opiniao/a-des…)
Há um problema: o próprio Estadão esteve neste grupo que dispensou as críticas e validou as manobras extraordinárias de lawfare.
25/06/2023 - Editorial afirma que “ao longo do governo de Jair Bolsonaro a democracia pareceu estar sob risco, o que poderia justificar medidas excepcionais”. O texto também cita que a 1ª Turma e o plenário do STF validaram as ações de Moraes e que “essa atitude de ratificação generalizada foi importante” nas eleições de 2022. Além disso, o Estadão diz que “a diligência de Alexandre de Moraes foi fundamental, no ano passado, para a proteção do regime democrático”.
estadao.com.br/opiniao/o-dev…
03/09/2025 - O Estadão bate em Tarcísio de Freitas por ter dito que “não confia na Justiça” (uma indireta ao STF). Para o jornal, “é seu dever preservar a imagem das instituições democráticas, mesmo que se sinta contrariado” e “deveria se empenhar ao máximo para que o Supremo seja visto como essencial na sustentação do Estado Democrático de Direito”. O jornal arremata com a frase mais incisiva do texto: “Deslegitimar o Supremo é algo próprio dos liberticidas bolsonaristas”.
estadao.com.br/opiniao/as-es…
07/09/2025 - Em vez de examinar se os atos extraordinários contaminaram o julgamento da suposta tentativa de golpe, o Estadão o descreve como “um civilizado acerto de contas da democracia brasileira com seus inimigos recentes”. Assim, transforma uma parte do ataque à democracia que é a tentativa de destruição de um movimento político em uma defesa da democracia, em conformidade com a principal narrativa de Alexandre de Moraes para seus abusos. Como eu e David Ágape mostramos um mês antes deste editorial, na presidência do TSE Moraes ordenou a produção de fichamentos ideológicos dos detidos do 8 de Janeiro, fichamentos esses (certidões) que só continham opiniões políticas dos detidos nas redes sociais e foram usados como critério decisório sobre quem era mantido preso. Mas, para o Estadão, a eleição de 2022 foi “uma eleição limpa”. Para o jornal, Estado de exceção não é um juiz julgar uma ação na qual ele próprio é a vítima, mas o que teria acontecido se Bolsonaro tivesse ganhado: “se a Corte tivesse sido leniente diante do golpismo de Bolsonaro e sua grei, decerto o País estaria submetido hoje aos horrores de um Estado verdadeiramente de exceção”. Análise de futuro alternativo que só pode ser feita com uma bola de cristal mágica.
estadao.com.br/opiniao/o-sup…
Em janeiro, foi arquivada a pedido da PGR uma petição criminal produzida por uma petista ex-funcionária da Dilma e bajuladora de Moraes contra David e eu, uma petição feita em clara retaliação pela nossa reportagem, acolhida por três meses por Moraes em seu gabinete apesar de não termos foro privilegiado. Ao noticiar o arquivamento, o Estadão publicou uma reportagem que NÃO BUSCOU FALAR CONOSCO como partes citadas, nos xingou de “blogueiros” enquanto chamou nossa perseguidora de “jornalista”, e repetiu as acusações dela, quase lamentando que a petição criminal que quis nos incluir no Inquérito das Fake News e nos acusou de tentativa violenta de abolição do Estado democrático de direito foi arquivada “apesar dos documentos apresentados”.
estadao.com.br/politica/mora…
Ou seja, o jornal ativamente publicou uma reportagem em que David e eu fomos tratados como participantes de uma das “tentativas ‘extremistas’ de deslegitimar o Supremo”, assim classificadas pela arma retórica para blindar Moraes e o STF da qual o Estadão agora reclama.
É melhor ter um jornal que agora começou a perceber que o que ele próprio defendeu abriu uma caixa de Pandora? Sim. Não vou reclamar de quem elogia o Estadão por estar fazendo isso. Mas quem não tem memória está condenado a repetir a mesma postura que alimentou o monstro que agora ameaça devorá-lo.