Embora, em um primeiro momento, a manchete possa parecer favorável a Moraes, ela complica ainda mais a situação do ministro.
Tenho certeza que Vorcaro achou que estava ajudando, tentando dizer: "eu paguei para me aproximar dele, mas ele não praticou nenhum ato ilícito em troca".
O problema é que ele não aponta, tampouco, qual ato LÍCITO teria sido praticado em troca.
Então temos um contrato em que o delator praticamete ASSUME tratar-se de uma simulação. Ou seja, um ardil jurídico para disfarçar que o pagamento feito a determinada pessoa era, na verdade, para outra: um agente público, e com finalidades ilícitas ("aproximar-se" de Moraes). O fato de ele ter feito o contrato em nome da esposa de Moraes (e não do próprio ministro) mostra que tinha consciência de que a "transação" era ilícita. Caso contrário, não tentaria disfarçá-la.
Além disso, e aqui é que a coisa fica mais interessante. Lembram quantas vezes Moraes e seus defensores repetiram, sobre o crime de golpe de Estado: "o crime é tentar"?
Olha a ironia do destino: os potenciais crimes que podem se configurar nessa relação de Vorcaro com Moraes (corrupção, tráfico de influência ou advocacia administrativa) são todos formais. Ou seja, NÃO precisam de resultado naturalístico para se consumarem.
Basta que o agente público ACEITE receber a vantagem indevida e o crime já está consumado, ainda que não tenha praticado qualquer ato de ofício em "contrapartida".
Ou seja, se algum dia chegarmos a ver Moraes ser investigado e/ou julgado por esse caso, sempre que um defensor vier dizer "mas ele não praticou nenhum ato ilícito em troca", pode responder, sem medo de ser feliz: "o crime é tentar".
Vorcaro diz à PF que contrato de R$ 129 milhões com mulher de Moraes não teve contrapartida
dlvr.it/TT2CNr