Como marcar um território político próprio em tempos de bolsonarismo e lulopetismo? Não será, evidentemente, com o amarelinho da Seleção, nem com o vermelho de opereta comunista. Resta, então, o preto. Nikolas Ferreira surge com a pretensão, nada modesta, de encarnar a única e derradeira terceira via: um messias político desprovido de pedigree, nascido de um milagre que ele próprio julga não dever a ninguém, ancorado num futuro que dispensa o peso do passado. Atrás dele, uma legião de jovens que repele tanto o ouro gáudio quanto o carmesim ideológico e adota, em seu lugar, a cor da negação: o preto.
O preto, que nas artes plásticas e na física da luz se define pela ausência radical de reflexo, tipo: “não refletirei outras cores” ou “não contem comigo para refletir o que eu não sou”, é, coincidentemente, trazido à ribalta, para, na cabeça de muitos, representar o novo. Quase uma confissão involuntária, dirão alguns. Mas, como não recordar, diante dessa escolha, as Camicie Nere da Itália? Os Camisas Negras, milícia paramilitar do Partido Nacional Fascista de Benito Mussolini, tropa de choque que garantia, a porrete e a pistola, a ascensão e a permanência do regime. Eles marchavam de negro, cor da noite, da morte e da supressão de toda nuance. É claro que a garotada de Nikolas não guarda relação orgânica com aqueles squadristi. São épocas distintas, contextos incomensuráveis. Mas as coincidências históricas, quando se repetem com tamanha precisão estética, deixam o observador levemente perplexo, como se o inconsciente coletivo da política brasileira, sempre atrasado, teimasse em reencenar velhas óperas sob novos libretos. Além do mais, o negro carrega, por razões dolorosas demais para serem ignoradas, um lastro simbólico pesado: escravidão, luto, treva. Adotá-lo como cor partidária já seria, por si, de mau gosto. Mas há ainda um segundo motivo, mais sutil e talvez mais revelador: segundo a teoria clássica das cores, o preto é neutro.
Neutro, precisamente neutro. Nem vibra, nem reflete, nem se compromete. Apenas absorve tudo e devolve o vazio. Coincidência? Ou sintoma perfeito de uma pretensa “terceira via” que, no fundo, apenas veste de elegância sombria a mesma velha indigência ideológica carmesim?