OLAVO E OS METACAPITALISTAS
Em 2004, o saudoso professor Olavo de Carvalho publicou no Jornal da Tarde um artigo intitulado “História de quinze séculos” (link nos comentários). Nele, Olavo descrevia aquela classe de pessoas a quem chamou de “metacapitalistas”.
Em suas palavras: “Se o sistema medieval havia durado dez séculos, o absolutismo não durou mais de três. Menos ainda durará o reinado da burguesia liberal. Um século de liberdade econômica e política foi suficiente para tornar alguns capitalistas tão formidavelmente ricos que eles já não querem submeter-se às veleidades do mercado que os enriqueceu. Querem controlá-lo, e os instrumentos para isso são três: o domínio do Estado, para a implantação das políticas estatistas necessárias à eternização do oligopólio; o estímulo aos movimentos socialistas e comunistas que invariavelmente favorecem o crescimento do poder estatal; e a arregimentação de um exército de intelectuais que preparem a opinião pública para dizer adeus às liberdades burguesas e entrar alegremente num mundo de repressão onipresente e obsediante (estendendo-se até aos últimos detalhes da vida privada e da linguagem cotidiana), apresentado como um paraíso adornado ao mesmo tempo com a abundância do capitalismo e a ‘justiça social’ do comunismo. Nesse novo mundo, a liberdade econômica indispensável ao funcionamento do sistema é preservada na estrita medida necessária para que possa subsidiar a extinção da liberdade nos domínios político, social, moral, educacional, cultural e religioso. Com isso, os metacapitalistas mudam a base mesma do seu poder. Já não se apóiam na riqueza enquanto tal, mas no controle do processo político-social. Controle que, libertando-os da exposição aventurosa às flutuações do mercado, faz deles um poder dinástico durável, uma neo-aristocracia capaz de atravessar incólume as variações da fortuna e a sucessão das gerações, abrigada no castelo-forte do Estado e dos organismos internacionais. Já não são megacapitalistas: são metacapitalistas – a classe que transcendeu o capitalismo e o transformou no único socialismo que algum dia existiu ou existirá: o socialismo dos grão-senhores e dos engenheiros sociais a seu serviço”.
Como sempre, o artigo foi recebido com risinhos de deboche por parte dos “especialistas” midiáticos, que, raciocinando sobre frases feitas e definições enciclopédicas, lançavam objeções em forma de ironia: “Quer dizer que os maiores capitalistas são, na verdade, anticapitalistas?” E encerravam como o argumento irrefutável: “Ha Ha Ha”.
É claro que essas sumidades intelectuais não sabiam, dentre muitas outras coisas, que o próprio George Soros - o protótipo do metacapitalista, segundo o conceito do Olavo - já o havia confessado em artigo de 1997 publicado na revista The Atlantic (link nos comentários), onde afirmava categoricamente:
“Embora eu tenha feito fortuna no mercado financeiro, hoje temo que o fortalecimento irrestrito do capitalismo laissez-faire e a difusão dos valores do mercado para todas as esferas da vida estejam ameaçando a nossa sociedade aberta e democrática. O principal inimigo da sociedade aberta, creio, já não é a ameaça comunista, mas a capitalista”.
Não adianta. Ter razão era mesmo a vocação do Olavo. E, como já ensinava Sócrates a um sofista no Górgias, risinho de deboche nunca foi argumento para nada (ou, como preferia Olavo, é argumento de puta):
“Que é isso, Polo, estás rindo? Será essa uma nova modalidade de refutação, rir de alguém que afirma alguma coisa, sem opor-lhe qualquer argumento?” (Platão, Górgias)