Trump Estava Vencendo. Preferiu o Acordo.
Antes de iniciar a leitura deixe de lado duas síndromes dos fanáticos e torcedores cegos de ambos os lados quando tratamos de Trump:
TMS - Trump Messiah Syndrome.
TDS - Trump Derrangement Syndrome
Há uma palavra que os grandes líderes da história compartilham, não nos discursos que proferiram, mas nas ofertas que recusaram.
Churchill tinha o acordo. Depois de El Alamein, com o Eixo em retirada na África e os Estados Unidos já na guerra ao lado dos Aliados, um acordo honroso estava ao alcance. Hitler sinalizou disposição para negociar. Churchill não queria um acordo honroso. Queria Berlim. Pressionou até a rendição incondicional.
Lincoln tinha o acordo. Depois de Gettysburg e Vicksburg, com o exército confederado sangrando e a Confederação à beira do colapso, uma delegação sulista veio a Hampton Roads propor o fim das hostilidades mediante certas condições. Lincoln tinha uma resposta: rendição incondicional e abolição da escravidão, sem exceções. Não houve acordo.
Washington tinha o acordo. Depois de Yorktown, com Cornwallis rendido e o exército britânico humilhado nas Américas, a Coroa estava disposta a negociar uma paz favorável às colônias. Washington e o Congresso exigiram independência plena e retirada total das tropas britânicas. Nada menos.
Três homens. Três momentos em que o acordo era a saída disponível. Três recusas.
Não por imprudência. Mas porque entendiam algo que só se aprende quando se está no momento certo, com a força certa, diante da escolha certa: a história não perdoa quem desperdiça o momento da força trocando vantagem real por paz de fachada.
Agora considere o seguinte fato.
Menos de três meses atrás, Donald Trump zombava publicamente do acordo que Barack Obama fechou com o Irã em 2015, o JCPOA, que chamou repetidamente de "o pior acordo já negociado na história americana". Falava dos aviões Boeing carregados de dinheiro vivo, dos paletes de cédulas enviados diretamente para os Guardiões da Revolução Islâmica, da patética submissão americana diante de um regime terrorista. "Isso não vai acontecer com Trump", proclamou.
Aconteceu.
Esta semana, os Emirados Árabes Unidos, aliado estratégico dos Estados Unidos na região, disponibilizaram 20 bilhões de dólares em ativos iranianos congelados ao regime. Três bilhões já foram entregues. Os emiradenses negam que estão pagando o Irã em nome de Washington. Mas se Abu Dhabi acreditasse que Trump estava prestes a dar o golpe final nos aiatolás, não estaria pagando tributo a um vizinho que, só nos últimos meses, disparou centenas de mísseis e drones contra infraestrutura regional de alto valor. Você não paga tributo a quem está perdendo. Você paga a quem parece estar vencendo.
Aqui está o problema, e é um problema de dimensão histórica.
Trump não entrou nessa guerra como Obama. Obama negociou de uma posição de fraqueza estrutural, acenando com sacos de dinheiro para convencer um regime hostil a sentar à mesa. Trump e Netanyahu chegaram ao segundo mandato americano com instalações nucleares iranianas críticas já destruídas, com a cúpula do regime eliminada, com Qassem Soleimani, o arquiteto do terror iraniano por décadas, morto por decreto americano no primeiro mandato. O Irã estava genuinamente enfraquecido. A força era real. O momento era único.
Era o momento de Churchill depois de El Alamein. Era o momento de Lincoln depois de Gettysburg. Era o momento de Washington depois de Yorktown.
E é exatamente esse o momento que está sendo desperdiçado.
JD Vance, o vice-presidente que abertamente se opôs à guerra contra o Irã, líder da fação "restricionista" dentro da Casa Branca, passou as últimas semanas negociando um memorando de entendimento com Teerã. Os termos que ele vende à imprensa são deslumbrantes: o Irã desmantelaria instalações nucleares, destruiria estoques de urânio enriquecido, abandonaria Hezbollah, Hamas e os Houthis. Em suma: cedendo a cada exigência americana, sob verificação rigorosa.
Se você acredita nisso, tenho um porto de águas profundas para te vender no estreito de Ormuz.
O modelo é idêntico ao de Obama. Literalmente idêntico.
Vance usa até o mesmo argumento: que a facção "moderada" do Irã está ascendente, e que a maneira de empoderá-la é fazer concessões para que demonstrem aos "linha-dura" que conseguem entregar benefícios ao povo iraniano. Obama disse isso palavra por palavra em 2015. Funcionou? Não. O dinheiro do JCPOA foi direto para os Guardiões da Revolução, que financiaram seu arsenal e seus proxies terroristas em todo o Oriente Médio.
A diferença que Vance reivindica: o Irã só recebe quando cumprir. Pagamento condicionado à performance.
Mas o Irã já está recebendo. O acordo tem duas fases, e na primeira, antes de qualquer discussão nuclear, o Irã já exige e obtém concessões concretas. O que Vance passou semanas negociando tem outro nome. Os três bilhões emiradenses já entregues são a resposta. São os paletes de cédulas de 2025.
O que está acontecendo tem nome.
Não é diplomacia. É a lógica da rendição vestida com a retórica da vitória.
Quando um presidente decide que o custo de vencer uma guerra é alto demais e recorre a negociações, ele não muda apenas de tática. Ele muda o equilíbrio de poder. O Irã, que estava na defensiva, sem força aérea, sem marinha, com instalações nucleares destruídas, agora sabe que os Estados Unidos recuaram. Sabe que Trump considerou o preço da vitória alto demais. Sabe, portanto, que pode ditar o ritmo das conversas, protelar por seis meses, doze meses, até o fim do mandato, enquanto reconstrói silenciosamente o que foi destruído.
O que não é conquistado pela força não pode ser tomado pela negociação.
Isso não é análise geopolítica sofisticada. É simplesmente a mecânica do poder, tão velha quanto Tucídides.
Há uma ironia cruel aqui que merece ser dita em voz alta.
Foi a parceria entre Trump e Netanyahu que impediu o Irã de ter a bomba. Foi Trump quem saiu do JCPOA em 2018. Foi Trump quem matou Soleimani em 2020. Foi a parceria entre os dois, no segundo mandato americano, que destruiu instalações nucleares iranianas, decapitou a liderança do regime e desfez décadas de capacidade bélica construída pacientemente. Se não fosse por essas decisões, o Irã provavelmente já teria a bomba hoje.
Trump foi o Churchill que pressionou além de El Alamein. O Lincoln que não cedeu em Hampton Roads. O Washington que não parou em Yorktown.
Agora ele está parando.
E o pior: está raivoso com Netanyahu por continuar lutando. Declarou estar "perturbado" com o aliado que insiste em defender seu próprio povo enquanto o acordo de Vance, a reedição de Obama, está "quase fechado". Está repreendendo quem resiste. Está protegendo quem cede.
Não há como embrulhar isso em retórica de vitória.
Trump e Netanyahu construíram o momento mais favorável que qualquer coalizão ocidental jamais teve contra o regime iraniano. Tinham o inimigo enfraquecido, humilhado, com suas instalações destruídas e sua liderança eliminada. E escolheram parar, não porque foram derrotados, mas porque Trump decidiu que o preço de vencer era alto demais.
Churchill, Lincoln e Washington estavam vencendo, e precisamente por isso não fizeram o acordo. Trump estava vencendo, e precisamente por isso está fazendo.
Essa inversão simples e brutal é o resumo de tudo.
A história não tem memória curta o suficiente para confundir isso com vitória.
Churchill não está aqui para proclamar seu legado. Não precisa.
Washington não ergue a mão pedindo reconhecimento. A história já o reconheceu.
Lincoln não assinou o acordo. E ficou para sempre.
A história simplesmente segue em frente.
Sem olhar para trás.
Ou quando olha, é para registrar uma advertência.